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domingo, 23 de outubro de 2011

Frases de um padre (e que padre!)

Na semana que passou, eu tinha um compromisso especial: participar do VII Simpósio Filosófico-Teológico: perspectivas em um mundo plural, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Bem, não pude aproveitar muito do evento, por falta de tempo ou de organização pessoal. Estive presente somente para uma conferência e para apresentar uma comunicação (ocasião em que pude assistir também à apresentação de outros dois comunicadores). 

Minha comunicação não vem tanto ao caso. Dei-lhe o título de Nota sobre a conversão ao judaísmo na Antiguidade: testemunhos da Bíblia Hebraica e Fílon de Alexandria. Eventualmente, posso escrever sobre o assunto aqui. Agora, contudo, quero relatar algo que ouvi na conferência do professor Jaldemir Vitório.

Eu o conhecia de nome, por ter lido algo de seu trabalho sobre Bíblia. Ele é reitor da Faculdade Jesuíta e orienta estudantes de Mestrado e Doutorado (a FAJE tem conceito 6 pela Capes, o que a faz a mais bem conceituada, empatada com a EST). Mas, além disso, ele é padre. Eu pensava que seria padre só de nome, que rezaria uma missa de vez em quando, no Natal ou Semana Santa. Mas não. Ele disse que trabalha como padre mesmo. Tudo bem, pensei, deve trabalhar em uma comunidade abastada, de uma paróquia nobre. Não. "Trabalho como padre em Ribeirão das Neves". Para quem não tem ideia do que isso signifique, eu explico. Neves, como dizemos, é a cidade mais sofrida e pobre da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os governos só fizeram uma coisa, um investimento por lá: construir presídios. Há muitos bairros da cidade sem asfalto. O atendimento de saúde é precário e as escolas carecem de tudo. Confesso meu espanto mesquinho. Nunca imaginei que ele trabalhasse num lugar assim.

Vamos lá! Simpático, falou-nos sobre o profetismo clássico do século VIII a.C. e sua relação com a política, sua tensão com a monarquia. Academicamente, foi uma boa conferência. Mas eu não esperava (e não espero nesse tipo de evento) que fosse também espiritualmente edificante. E foi. Para dar uma ideia, deixo duas falas do religioso que mexeram comigo.


Um ouvinte lhe perguntou se a pregação dos profetas não era, diferente do que ele vinha explicando, mais contra a idolatria do que contra as injustiças. Ele, então, me saiu com essa resposta brilhante:

"Quando há injustiça, há idolatria. Quando você cultua o Deus verdadeiro, não há injustiça. Mas quando você passa a cultuar o outro deus, você se coloca como deus sobre o próximo, para impor e subjugar. Aí, há injustiça."


Pouco depois, outro ouvinte se referiu a um problema de certa diocese. Segundo ele, os padres do lugar não levantam a voz contra as injustiças praticadas na região. Preferem manter seus discursos mornos que não incomodam ninguém. Jaldemir (permito-me chamá-lo assim por sua simpatia) comentou serenamente que as pessoas não exercem sua vocação de profetas porque não querem arriscar a própria pele, e finalizou:


"Quem não tem personalidade não serve para ser cristão. Serve para ser católico. Serve para ser evangélico. Mas não serve para ser cristão. E muito menos para ser profeta."


Ah! Sem comentários! Comentem vocês!

Um abraço!



Cesar

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A dimensão profética da poética do Fruto Sagrado

Esse provavelmente é o título imaginário de um projeto de pesquisa que nunca realizarei. Um projeto que daria muito gosto fazer, mas que não encontra espaço na minha agenda. Enfim, deixe-me comentar um pouco sobre a ideia.

As letras do Fruto têm algo que me lembra os profetas do Antigo Testamento. Há nelas uma despudorada coragem de meter o dedo na ferida, apontar as fraudes, reclamar justiça. Suas mensagens, como as dos profetas, não são elaboradas com o intuito de agradar aos nobres deste mundo. Pelo contrário, escancaram sua participação na desgraça alheia. Também não visam afagar a cabeça do povo. Trazem notícias ruins, de tempos difíceis, mas sem perder a direção da esperança.

A dimensão profética da poética do Fruto Sagrado está no conteúdo de suas letras, no engajamento de sua atitude, no modo de enunciação - urgente e sagaz. Ela se revela não por autoaclamação, mas por semelhança com os profetas vetero-testamentários.

Ironicamente, aqueles que se dizem profetas hoje apresentam um discurso muito diferente do que lemos na tradição profética. Falam de demônios, de exu não sei das quantas, de principados territoriais, de bênçãos particulares e vitórias materiais específicas de um ou de outro. Nada disso encontro nos Profetas quando leio as Escrituras. Suspeito que o profético pode não estar na "adoração profética", no "ato profético" ou nos "profetas" da tv. Nesses, só o significante aparece na superfície da língua. Mas o significado habita lugares inesperados. O profético, essa tensão de proximidade com o divino que transborda em um discurso a partir de um montinho de poeira (o ser humano), pode emergir em forma de música na ousada escrita do Fruto Sagrado.

E a importância de se atentar para a semelhança entre as letras do Fruto com o projeto dos Profetas reside no fato de que ela revela, além da urgência de uma atuação transformadora da Igreja no contexto presente, a distância que há entre os pretensos discursos "proféticos" de nosso tempo e a verdadeira profecia.

Hoje, o apelo ao individualismo e às vaidades pessoais transformou a tradição profética e a trouxe cativa para o âmbito de nossas mediocridades cotidianas. "Deus cumpriu sua promessa" - diz o adesivo no vidro do carrinho, sugerindo que aquele veículo tinha sido prometido pelo Eterno. E muitos se agradam com esses joguinhos "proféticos" e essas suaves manipulações com a palavra alheia. Mas se esquecem que a Palavra Alheia da profecia tem dono. E o Dono pode não gostar desse circo que montaram.

Quer dizer que não creio na atualidade do profético? Pelo contrário. Creio plenamente. Mas suspeito que o verdadeiro profético está onde a maioria não gosta de procurar. Porque o profético incomoda. O profético não massageia o ego (como se faz em muitas igrejas que se acham cheias de "profecias" e "revelações"), mas desperta o espírito. 

O profético só existe pelo Espírito de Deus (quero dizer, ele não é de modo absoluto, mas se sustém a partir do Consolador), que fala o que se precisa ouvir, não o que agrada. O profético se esconde em músicas que não fazem dormir nem sair do chão (pular, correr e gritar etc.), mas que nos deixam estarrecidos e que nos levam ao pranto. Há algo de profético no Fruto Sagrado? Houve? Acredito que sim. Como acredito que há algo de profético em muitos púlpitos ainda hoje. Mas ninguém quer escutar.

P.S. Está grande a postagem, mas não posso deixar de mostrar a música que a motivou. Acontece que no blog A Pedra eu comentei um texto sobre a ganância de um dos muitos pop-pastores que disputam espaço nos domínios televisivos com uma música do Fruto que é a seguinte:




Recebi um dossiê com a tua história,
O teu passado, o teu presente.
Não tenho boas notícias
Sobre o teu futuro!
Você até começou bem,
Cheio de boas intenções,
Uma fogueira ardia
Em teu coração...

Mas se vendeu por trinta
Moedas de prata,
Se apaixonou pelo gosto
Do vil metal,
Se acorrentou em sua
Conta-corrente,
Sua pregação virou um medíocre
Apelo material!
Alguns amigos tentaram te avisar,
Te alertar, lembrar do primeiro amor!
Agora é tarde, eu tenho que te levar,
E não é pro lugar que você
Tanto sonhou...

Teu tempo acabou,
Teu tempo acabou...
Pediram a tua alma
E essa noite eu vim aqui
Só pra te levar!

E agora, onde você vai colocar
Tanto dinheiro, tanto cifrão?
Não adianta ficar aí, parado,
Me olhando com essa
Cara de bobão!
Vai estacionar seu Audi aonde?

Lá em Miami ou em Hong Kong?
Valeu a pena trair
Quem sempre te amou?

Essa grana não consegue
Me subornar
Eu cumpro ordens!
Tô aqui só pra te levar
Sem lenga-lenga, sem lero-lero...
Porque o juiz já bateu o martelo!
Alguns amigos tentaram te avisar,
Te alertar, lembrar do primeiro amor!
Agora é tarde eu tenho que te levar,
E não é pro lugar que você
Tanto sonhou...

Teu tempo acabou,
Teu tempo acabou...
Pediram a tua alma
E essa noite eu vim aqui
Só pra te levar!

Nem mais um minuto, mané!
Nem mais um segundo sequer!
Nem mais um instante qualquer!
Teu tempo acabou!

Teu tempo acabou,
Teu tempo acabou...
Pediram a tua alma
E essa noite eu vim aqui
Só pra te levar!