Uma fonte no Regent's Park, Londres
[Se você entendeu o título, talvez nem precise ler o texto]
Tenho lido certos textos que me deixam um pouco triste. Cristãos com boas intenções tentam desconstruir a possibilidade de se encontrar valor nas tradições e instituições cristãs. Eles costumam relacionar tudo que é religião com o farisaísmo dos tempos de Jesus. Entendo que o acesso que eles têm ao contexto histórico dos dias de Jesus é limitado. Não perceberão, então, que a relação de Jesus com os fariseus não é tão simples quanto parece. Não há exclusão pura. Mas isso não é assunto para um texto como este. Por isso, vou direto ao ponto. Essas pessoas só são capazes de estabelecer a seguinte conexão: "Jesus não gostava do farisaísmo. O farisaísmo representava a religião institucionalizada. Logo, Jesus não gosta de religião." O erro permeia todo o caminho dessa lógica. Pois bem, eles perguntam "Quem são os fariseus de hoje?" querendo apontar o dedo aos religiosos. Mas a pergunta e a resposta podem estar erradas. Preocupo-me, e gostaria simplesmente de manifestar as seguintes opiniões:
1. A tradição é algo inevitável. Mesmo quem quer negar a tradição escolhe uma tradição. Isso fica claro nas ideias que um a-tradicional acolhe, no modo de culto que realiza, nas referências que faz a um ou outro líder, na linguagem que usa etc.
2. As instituições e tradições cristãs não são necessariamente ruins.
3. As tradições cristãs compõem a "revelação humana da verdade divina". Isto é, cada tradição cristã diferente (as orientais, inclusive) contribui para revelar, na existência histórica da humanidade, uma forma de recepção da (e resposta à) verdade divina. Por isso, cada tradição tem a sua importância para que se compreenda como os cristãos reais, seres humanos de diferentes épocas, exerceram a sua fé e responderam àquilo que é anunciado na Bíblia, "revelação divina da verdade humana". Esta expressão também precisa ser explicada: a Bíblia é um meio que o Eterno encontrou para revelar (ou seja, é uma revelação divina) a verdade a respeito do ser-humano: sua criação, queda e meio de redenção.
4. Portanto, as tradições devem ser respeitadas e valorizadas, pois elas nos ajudam a progredir na compreensão comunitária da Verdade. Elas nos ajudam a vivermos a katholicidade (termo que preciso rasurar - a explicação eu dou em outra oportunidade) da Igreja em uma perspectiva de longo prazo. Elas tiram nossa centralidade do "eu", favorecendo uma compreensão mais holística da Revelação. [Em minha comunidade, por exemplo, utilizamos uma liturgia antiga. Partes dela são encontradas já em Pais da Igreja do século IV. Quando as canto, lembro-me que Basílio e Gregório de Nazianzo já as cantavam. Lembro que são palavras que atravessaram séculos e que, em idiomas diferentes e por bocas diferentes, foram usadas para expressar a devoção à Santíssima Trindade.]
5. Sem dúvida, as tradições não devem receber o mesmo valor da Bíblia. Quando discutimos algum assunto e alguém diz "Mas isso não muda porque é tradição", eu me inquieto. Tradição é algo feito de mudanças. E as mudanças nas tradições cristãs devem ser realizadas sem medo quando tiverem que ser feitas a partir e em benefício do testemunho bíblico. Por isso, a "revelação humana da verdade divina" precisa ser a partir da e ajustar-se constantemente à "revelação divina da verdade humana". Mas isso não ocorre uniformemente em todos os lugares e tempos. As percepções seguem padrões diversos.
6. As tradições devem ser valorizadas na medida em que apontam para a solenidade e sacralidade do culto a Deus. Mas devem ser questionadas, em um processo de mudança dentro da própria tradição, quando afastam o ser humano de seu contato com esse mesmo verdadeiro Deus, quando impõem o legalismo humano e a vaidade da aparência de santidade. Mas isso nem sempre acontece.
7. As pessoas criticam as instituições e logo criam as suas. Evitam alguns elementos, como templos construídos e placas. Mas só conseguem dificultar a funcionalidade da vida comunitária.
8. As tradições favorecem a formação de líderes competentes. Ao menos em princípio, uma tradição gera instituições que mantêm meios de formação de líderes para sua manutenção. Isso favorece o crescimento do conhecimento no meio cristão e a capacidade do diálogo entre diferentes igrejas (enquanto instituições visíveis que devem estar a serviço da Igreja de Cristo, invisível, santa e kathólica - novamente a necessária rasura).
9. A coexistência de diferentes tradições cristãs favorece o respeito, a humildade e o foco. O respeito: porque nos obriga a conviver com as diferenças. A humildade: porque nos mostra que nosso modo não é o único e não necessariamente o correto em tudo. O foco: porque nos lembra do que é a base comum e mais importante da nossa fé - o Evangelho de Jesus Cristo.
9. Se o Evangelho, em algum momento, se viu oculto por um emaranhado confuso de tradições (algumas alheias e contrárias à Bíblia), é verdade também que, nos últimos tempos, ele tem estado oculto por uma confusão que pode ter sido posta em movimento por uma total falta de tradição e noção histórica. Tanto que, hoje, é bem possível dizer que é preciso evangelizar os evangélicos.
10. Muitas vezes, quem quer negar as tradições diz que já esteve ligado a uma igreja mas que nunca havia percebido a Verdade do Evangelho da Graça. Então, começam a escrever um monte de frases bonitas sobre a Graça como se estivessem descobrindo a América no século XXI. Isso fazem justamente porque nunca deram atenção à tradição. Não perceberam que a mesma mensagem já foi esclarecida por Lutero, por exemplo, de modo inclusive muito mais claro, embasado e elaborado.
Bem, há mais coisa a dizer, mas fico por aqui. Sei que poucos lerão isto. Destes, alguns não o entenderão. Dos outros, que o compreenderão, muitos não concordarão. Por milagre, talvez alguém leia, entenda e concorde. Mas uma coisa é certa, mesmo discordando você me corrobora, pois discordar já é tradição no cristianismo há muito tempo.
Um abraço,
Cesar M. R. (Não preso a uma instituição, mas servo-colaborador em uma. Não escravo da tradição, mas inevitavelmente parte dela. Pela Graça de Jesus, livre para servir em comunidade.)
P.S. Por favor, se você não entendeu, não critique; Leia de novo. Se não concorda, esteja à vontade para comentar. Se quiser mencionar alguma expressão ou trecho noutro lugar, mencione o blog e o autor.