terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mãe Gentil? O SUS e a morte do meu Nacionalismo (série opiniões avulsas)


"Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil"

Mês passado tentaram reacender o nacionalismo das populações das Américas. Os Jogos Panamericanos povoaram televisões e sites, convocando os brasileiros à torcida. Eu assisti a algumas modalidades e até cheguei a torcer por alguns brasileiros. Isso para mim é coisa nova. Faz algum tempo que fico neutro ou até torço contra. Na última Copa do Mundo, torci contra com todas as minhas forças. E deu certo. Bem, lá estava eu torcendo por alguns brasileiros no Pan! Mas logo percebi que não era a volta do nacionalismo moribundo que em mim se esconde. Era só simpatia pelas pessoas mesmo, que sofridas ainda encontram maneiras de praticar aquilo que lhes dá prazer e motivação. Meu nacionalismo continua sem batimentos. Desde quando?

Pois é, desde uns três anos atrás, quando vi, em uma reportagem, imagens de um hospital em Pernambuco. Havia lá, meio que em uma pia, o corpo de um garoto de uns nove anos. Ele havia sofrido afogamento e, ao chegar ao hospital, não se tinha nem um balão de oxigênio para facilitar o socorro. Morreu. Morreu porque em 500 anos de história não conseguimos construir um país decente, que tenha um balão de oxigênio para um menino afogado. Quinhentos anos e é isso que temos? Por mim, era hora de dizer que não deu certo, fechar as portas e desistir do negócio. Com aquele garoto, cujo nome jamais saberei, foi enterrado também o nacionalismo que habitava em mim.

"Ame-o ou deixe-o" diziam na ditadura. Amá-lo? Como? Como amar um país que nada faz pelos seus; que só finge fazer, mas que deixa os sofridos encobertos por uma cortina de retórica auto-bajulatória? Como amar um país, no qual Esquerda e Direita se encaminham para um mesmo lugar: o interesse próprio. "Ame-o ou deixe-o".

"Ame-o, a culpa é dos políticos corruptos", dirão alguns. Não, meu caro. A culpa é da corrupção que está arraigada em nossa cultura. Não são só os políticos. São os médicos, os advogados, dentistas, padeiros, lavadeiras, motoristas, faxineiros, administradores... É a mulher que, no hotel do Rio, me perguntou com toda a naturalidade: "Quanto você quer que eu escreva na notinha?". É ela e são os clientes que a acostumaram a isso. São os muitos, que se corrompem com pouco, mas que o fariam com mais se tivessem oportunidade. São milhares, milhões, que ano após ano construíram e constroem essa torre de Babel invertida, que é cavada rumo ao inferno, na qual todos entendem a linguagem do "jeitinho".

Vejo este pais com consternação e medo, porque a barbárie não está mais às portas, como antes. Ela já está na sala de jantar, e tranquilamente ceia nossos dias, nossos familiares, nossa paz, deixando ossos roídos em nossa alma ensanguentada. E no meio disso, o apresentador da tv me garante que as coisas vão bem, que somos a sexta economia do mundo. É ele que me serve fígado humano com o olhar de quem oferece balas e caramelos.

Os meus pobres se aglomeram nas filas para um atendimento básico de saúde. Crianças têm que recorrer à justiça por um leito de UTI. Exames simples demoram meses para sair. Aos psicólogos só chegam os que já precisam de psiquiatras. E o povo reclama. Pede que o ex-presidente se trate no SUS. É claro que o pedido não será atendido. Ele é rico, ainda que se travista de povo. Tudo bem, o pedido é ilusório. Mas o que aturde mesmo são as palavras dos jornalistas que julgam mais revoltante o pedido dos pobres do que o motivo que eles têm. Claro, eles vivem nos discursos e não na pele sofrida dos que sustentam este país sem o retorno merecido. Eles vivem nos centros comerciais onde circula gente abastada e alvejada comprando bonés de 150 reais, não nos lombos chibatados dos descendentes de africanos que nunca tiveram retribuição pela atrocidade a eles causada, nem na pele clara já queimada pelo sol dos descendentes de imigrantes pobres europeus que padecem miséria, escondidos no interior do Sul do Brasil. Não, esses jornalistas têm os pratos cheios de verduras orgânicas e carnes nobres, não a palma e poeira de uma caatinga de sol opressivo, que chega a rachar a alma dos que choraram. Eles têm até tempo para serem cult e ter estilo, enquanto pensam que os pobres não precisam mais que manter as funções biológicas do corpo em razoável ordem. Eles vivem noutro Brasil. Ou será que a nossa madrasta cruel é a mãe gentil deles? Só pode ser isso. Pedir DNA? Bem, dizem que o SUS beira a perfeição, mas não sei se esse exame sai não... Tem que entrar na fila...


Cesar, brasileiro e sobrevivente, pela misericórdia do Eterno.



P.S.: Que Deus abençoe o Lula. Mas não o colocarei à frente na fila de minhas orações. Orarei por ele e juntamente pelos milhares de brasileiros com tumores malígnos, que têm que esperar meses por um exame básico (não falo por ouvir dizer, mas por conhecer mesmo). Todo ser humano, conhecido ou não, merece ser tratado com dignidade sempre e, especialmente, em momentos sensíveis como esse.








5 comentários:

  1. César, bárbaro o seu texto! Um raio-X da realidade triste que temos enfrentado. Retirastes as cascas da mentira de sobre o podre do dia a dia.

    Abraços sempre afetuosos.

    Fábio.

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  2. Fábio,
    Como eu queria que para este texto as pessoas comentassem: "Você está completamente errado"! Mas parece que não é assim...
    Obrigado pela visita.
    Abraço fraterno,
    Cesar

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  3. Você esta completamente certo meu querido. Parabéns pelo texto!

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  4. Cesar,

    Seu texto é de uma propriedade riquíssima.
    Li e reli novamente. E sinceramente? Senti-me triste com sua descrição de uma realidade tão próxima, enraizada nas ações e atitudes que às vezes adotamos .
    Corrupção uma palavra usada mais para acusar políticos, mas de fato seu texto está coberto de razão, a corrupção está em todas as partes arraigada em nós.
    E somos responsáveis por isso.
    Um pensamento negativo tomou conta do meu pensar a respeito dessa nova geração aprendendo da pior maneira levar vantagens em tudo.
    Corrupção está tão presente diante dos nossos olhos em todos os lugares, esperando apenas uma voz alta e em bom som um “NÃO” Não vendo minha verdade, minha dignidade.

    Para termos um país melhor, embora no momento me pareça ilusório até acreditar se isso é possível. Precisaríamos nos reciclar sobre as situações e consequências acompanhadas nas deficiências em todos os setores de atendimento a nossa necessidade de qualidade de vida.


    A verdade das coisas certas está sendo levada com a nova era de tirar vantagens do outro.
    Eu poderia aqui citar vários exemplos.
    Mas sei que não diria nada que vc ñ saiba.
    O que posso dizer baseado em seu pensamento que VOCÊ está certo.
    Porém tem uma pergunta, embora dependa de mim mesmo a fazer a coisa certa para dar inicio um novo mundo adotando novo estilo de vida.
    Aplicando o que nunca deveria deixar de ser aposto.
    A sinceridade em tudo. O amor em tudo que fazemos.

    Sobre assuntos como esse levantado acima por vc, me pergunto todos os dias que o poderia fazer de melhor para mudar o espaço que ocupamos? As pessoas ñ parecem muito interessadas em fazer o que é certo para ser feito.
    É atraente fechar os olhos e o coração para situações tristes, e abraçar o QUE favorece sem grandes sacrifícios. A porta estreita é a passagem desconfortável... Porém a porta larga é espaçosa, tudo fácil e pratico parece ter um sabor agradável.
    São poucos que escolhem passar pela porta estreita.
    E o mais lamentável é que tudo parece está indo bem. Que está tudo em ordem.
    E que ñ há do se preocupar.

    Qto ao nosso Ex Presidente... Lamento muito por ele.
    Lamento mais pela oportunidade que ele teve de fazer algo grande pelo o seu País e não fez.

    Sou mais uma dessas brasileiras que enfrenta fila pra tudo, torcendo que a sorte esteja do meu lado e que eu consiga meus objetivos nas dificuldades sempre avista.

    O que mais dói não são as filas de espera.
    É os sentimentos feridos enquanto aguardada a vez do atendimento.

    Obrigada por nos presentear com seus pensamentos.

    E que DEUS tome conta de tudo.
    Pq somente a SOBERANIA DIVINA pode com tudo isso.

    Bjs

    Fica com Deus

    Cássia Sampaio

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  5. Cássia,

    Obrigado por sua visista e comentário.
    É... O que fazer?
    Só mesmo uma conversão radical (conversão como volta para Deus, não como mudança de religião) pode nos fazer pensar de modo diferente, para que o caminho estreito se torne a regra. Se todos os que se reconhecem como cristãos no Brasil vivessem com esse propósito, a coisa seria diferente.

    É triste. Compartilhamos as mesmas aflições, mas, de igual modo, a mesma firme esperança, de que o bom Jesus nos acolhe (sem demora) em seus braços amorosos com olhar de misericórdia.

    Abraço,
    Cesar

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