segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A verdade dividida: Não me esqueci do Drummond!


Estimados leitores e visitantes que, perdidos nos caminhos da virtualidade, acabaram esbarrando nesta cantina capenga, 

No dia 31 de Outubro, comemora-se o dia do nascimento de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros (e que não podia deixar de ser mineiro). No dia mesmo, não quis me manifestar sobre a comemoração, pois não queria competição com o dia da Reforma, que, embora menos poético, ecoa de forma mais intensa em mim nesses tempos. Agora, passados uns dias, esbarrei com um livro do poeta de ferro ao organizar umas caixas; resolvi lembrar dele por escrito, copiando aqui uma de suas poesias, uma que pode gerar ou ilustrar discussões teológicas interessantes. E isso é bom, pois falta-me inspiração para escrever algo de mim mesmo. Lá vai então:


A VERDADE DIVIDIDA

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.