terça-feira, 31 de maio de 2011

Saboroso Devocional para o mês de Junho

Chaleira da Scheila

este povo se achega com a sua boca
e com seus lábios me glorifica
enquanto seu coração está longe de mim ...
Isaías 29:13

Junho traz o frio a Minas. Não é frio de geada, de matar mato no pasto, nem de congelar roupa no varal. Mas é um friozinho de fazer querer dormir um pouco mais, de dar vontade de ficar em casa vendo filme, de lembrar café com queijo pelas tardes. O frio do corpo lembra o do coração. Como está ele? O que diz o Senhor sobre ele? Pois os outros interpretam nossas ações e palavras somente. Observam nossa disposição para a religiosidade e dizem se somos bons cristãos ou não. Mas o Eterno não se contenta com isso. Ele vem para mais perto e conhece os cantos esquecidos e os úmidos porões de nossa existência. E Ele chega até lá naquele quartinho mofado de trás da casa, onde guardamos as mágoas quase esquecidas, as lembranças deploráveis e os erros mais secretos. Mas Ele não vem para condenar. Ele traz uma Boa Notícia. Traz de volta à nossa mente o Evangelho, como um cappuccino quentinho para aquecer nosso frio coração. O calor muda o ambiente. O sentimento de culpa é desalojado para dar espaço à certeza do perdão. A mágoa, o rancor e a indiferença começam a ser substituídos pelo amor. Esse amor, que recebemos Dele, nos motiva também a amar. Assim, nosso coração aquecido começa a mudar outros corações.

Mas se eu não abrir a porta de meu coração para Ele, o frio aqui dentro persistirá. Poderei continuar piedoso na superfície, mas, no fundo, que Ele bem conhece, estarei distante, frio, gélido. Não menosprezemos o poder do Evangelho, pois ele pode aquecer as tardes frias de nossas vidas.


Fragmento de oração (junte este caco com outros tantos e componha sua prece):

Senhor, que neste inverno o frio esteja fora, mas que aqui, no meu interior, meu coração esteja aquecido por seu Evangelho, que traz perdão em vez de condenação, amor em vez de rancor, vida em vez de morte. Que eu não imite a Cristo somente na superfície, mas com todo o meu ser.

Cesar M. R.

P.S.: Este Devocional estará disponível durante todo o mês de Junho na barra de Páginas.

sábado, 28 de maio de 2011

Minha leitura do Pai Nosso hoje

Rio no Parque das Cachoeiras, em Ipatinga - MG

Trata-se de uma tradução minha, acrescida de um comentário breve e simples, quase digitado conforme o fluxo de meus pensamentos (pensamentos ruminados durante vários dias). A espontaneidade, que tem lugar na produção das orações, teve lugar também nesta interpretação inquieta, mas sincera. Espero que seja proveitosa para algo.

Nosso Pai, tu que estás no céu,

Clamo ao Eterno como pai, não somente meu, mas nosso, porque minha fé é vivida comunitariamente. Ele é chamado pai por cuidar de nós de perto, mas, logo, digo que está no céu, isto é, em um “lugar” que minha especulação não alcança. Nos dias atuais, talvez o céu (enquanto elemento físico) já não seja visto como algo tão distante. Por isso, talvez eu dissesse: Nosso Pai, tu que estás muito além dos limites conhecidos do Universo, alcançados pela intelecção e invenção humana.

Que o teu nome seja santificado,

Deus é santo. Mas o seu nome, isto é, o modo pelo qual nos referimos a Ele com nossa voz muitas vezes não é tratado com a devida reverência, como algo separado, sagrado, santo. Hoje, essa parte da oração parece fazer ainda mais sentido, uma vez que vivemos em meio a pessoas que fazem atrocidades usando o nome de Deus. Inclusive, cristãos inventam modas nas igrejas e, em vez de assumirem a responsabilidade por suas bizarrices, defendem seus devaneios com frases forjadas como estas: “Este projeto nasceu no coração de Deus” ou “O Senhor falou que eu devia mostrar isso para vocês...”. Falta o entendimento da sacralidade do Nome. Falta temor diante Dele. Por isso, o pedido é urgente!

Que venha a nós o teu reino,

Pois estes reinos que aqui experimentamos já provaram que nada têm a oferecer, sobretudo em um país corrupto como o nosso. Os reinos terrenos nos desiludem, por isso queremos que venha o Verdadeiro Reino do Senhor. Que venha pela transformação de nossas vidas individuais. E que venha com o derradeiro desfecho escatológico também.

E que da mesma forma como a tua vontade é feita no céu, seja feita também sobre a terra,

Porque as vontades dos homens estão corrompidas pelo egoísmo. Sem a tua santa vontade imperando, nós nos degladiamos por nada e não chegamos a lugar algum!

Dá-nos hoje o nosso pão diário,

Porque dependemos do suficiente para a vida inclusive para que possamos esperar Nele. Não pedimos luxo, riquezas sem fim, ou algo para ostentar, mas somente o necessário. Em algum momento, porém, alguns cristãos se viram contagiados pela febre das riquezas. Eles desprezaram a oração que Jesus ensinou e se convenceram de outras, segundo suas próprias vontades. Agora, clamam por uma prosperidade desmedida. Não percebem que as riquezas se tornaram seus deuses, enquanto o único Deus verdadeiro passou a ser tratado como meio, instrumento de sua cobiça.

E perdoa as nossas dívidas, como também nós perdoamos os nossos devedores.

Eu tinha uma dívida por meu pecado, mas ela foi completamente paga por Jesus. Nele, Deus perdoa tudo que eu fiz de mal. Agora, cabe a mim fazer o mesmo. É uma condição.

E não me conduzas à provação, mas livra-me do que é perverso.

Lembro que Deus conduziu Israel ao exílio, uma situação limite, uma situação de prova. O que peço é que Ele se apiede de mim e não me leve a situações como aquela, que testam minha fidelidade, porque sou fraco e reconheço minhas limitações. Por isso, peço também que faça o contrário de “me conduzir à prova”, o que é “livrar-me da maldade”. Livra-me, Senhor, eu peço. Nestes dias, o perverso é encontrado em cada esquina de minha cidade. Saio de casa e não sei se terei segurança até meu regresso. Minha fortaleza só pode ser o Senhor, pois a segurança que há nesta terra é falha.
[Sei que os teólogos preferem a tradução “Não nos deixes cair em tentação”, mas, embora agrade à teologia, parece-me distante do que encontro no texto mesmo. O verbo eisféro é “levar para”, “conduzir”. Essa tradução “apassivada” (“deixar cair”) é estranha, acho. Tudo bem, Deus não tenta a ninguém. Por isso, leio o substantivo peirasmós em um sentido menos moral. Se alguém se interessar, conversamos sobre isso.]

É isso. Mais que isso, só conversando.

Um abraço fraterno,

Cesar

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O perfume do cajá-manga


Cá ia eu escrever sobre Palocci, gordura trans, a desbancada "evangélica" do congresso nacional e tanta bobagem que se vê por aí. Acordei com esse propósito. Mas aqui na mesa, ao lado do computador, tem uma fruteira com pêras e cajás-manga.

O cajá-manga é originário de umas tais Ilhas da Sociedade, parte da Polinésia Francesa, no Pacífico. É suculento quando maduro e faz um suco maravilhoso. Estes da foto ainda estão meio verdes. Mas já exalam um perfume marcante e agradável; suave, mas insistente. A questão é que esse perfume e o silêncio que meu vizinho estranhamente me brinda hoje não podem ser desperdiçados com prosa sobre coisa ruim. Então, continuo meu trabalho com as palavras antigas, minha prazeirosa labuta tradutória. Posso parecer negligente em princípio... Mas, lembram-se do episódio em que Jesus disse à atarefada Marta que Maria tinha escolhido a melhor parte (Lc 10:38-42)? Pois é, acho que as palavras de Jesus atraíam como perfume de cajá-manga. Por hoje, então, minha escolha está feita.

Um abraço,

Cesar

P.S.: Admito que o texto de Lucas merece uma leitura meticulosa. Vou tratar de fazer isso em um futuro próximo. Isso também seria perfume dos bons!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aleluia? ou A quem você louva?

Aleluia!
Afinal, essa palavra faz parte do vocabulário do Português? Sim. Ou melhor, não. Quero dizer, depende... Ela faz parte porque é usada com frequência pelos falantes de nossa língua, inclusive fora de contextos cúlticos. Mas trata-se, na verdade, de uma expressão hebraica formada por duas palavras: halelu ya. A primeira é um imperativo de segunda pessoa do plural do verbo halal (no piel – completo a informação supondo um possível leitor hebraísta minimamente exigente), cujo sentido é louvar. A segunda palavra, ya, é um nome próprio utilizado para se designar Deus. Ou, para ser mais preciso, ya parece ser uma forma abreviada e poética do nome impronunciável de Deus, expresso graficamente pelo tetragrama YHWH. A expressão halelu ya poderia ser traduzida, então, por algo como “louvai a YHWH”, ou “louvai a Deus”, mas com a certeza de que se louvará a esse Deus específico, o único verdadeiro Deus, não a um dentre tantos outros que são apregoados por aí.

Assim, dizer aleluia não é fazer uma exclamação de louvor simplesmente, mas um convite bem definido a todos os que escutam. Ao cantar aleluia, estamos convidando os demais a se unirem a nós no canto que entoamos ao Deus Eterno, aquele que conhecemos por meio de Jesus Cristo (Quem vê a mim, vê o Pai!), pela ação do Espírito Santo em nós.

Aleluia!
Cesar
P.S.: Fique com uma das mais famosas músicas que há, executada por um dos melhores coros. Um coro com vozes masculinas somente. É extraordinário! Tenho que admitir que os anglicanos dão um banho quando se trata de canto coral.
 

sábado, 21 de maio de 2011

"Imagem e Semelhança": a queda, a graça e o comum desentendimento da fé cristã


A música é boa, como costuma ser quando vem de compositores tão capacitados: Bena Lobo, Kiko Constantino e Milton Nascimento. Chama-se "imagem e semelhança" (álbum Pietá do Milton) e manifesta uma inquietação comum entre muitos. Como tudo fica muito óbvio na letra, a apresento antes de um mínimo comentário:

Pai do Céu
Me manda alguma ajuda
A luz numa mensagem, careço de saber
Senhor, só preciso de um recado
Há coisas nesta vida
Que não posso entender

Será sua imagem e semelhança
Não, meu Pai do Céu
Não posso acreditar
Não dá

Alguém inventou essa balela
A gente não merece
De longe comparar
Falta de respeito, no começo,
Nem se acha um herdeiro
Na glória de amar
Veio seu Filho salvar a terra,
Tanto sacrifício,
Alguém mereceu,
Será?

Buda, oxalá ou Krishna, muito amado
Nos fizeram andar
Mas resta a pergunta do começa,
Tô tanto tão distante de ter sido feito,
A sua imagem, Pai.

É legítima a questão, além de formulada de uma forma completamente poética. Mas se origina de uma leitura da fé cristã que deveria ser comum somente a partir de um contexto não-cristão. Ou seja, parece-me normal que um budista ou hindu se inquiete assim a respeito do cristianismo. Já um cristão ou alguém que está inserido em meio a uma população majoritariamente cristã deveria ter uma visão ampla o suficiente de nossa proposta, a ponto de lembrar de duas palavras esquecidas: queda e graça.

Considerando-se a entrada em cena do pecado, fica mais razoável esse distanciamento moral óbvio entre nós e o Criador. Já o reconhecimento da graça exclui a expectativa de merecimento. Por isso, é extremamente importante, até mesmo imprescindível, que a fé cristã não seja divulgada apenas  em sua superficialidade, e que não sejam enfatizados somente os componentes legalistas da religião, mas que a encarnação da Palavra seja compreendida pela explanação da história de Salvação, enquanto plano movido por um amor imensurável. Tenho por certo que o cristianismo, se desprovido da noção da Graça, seria mais uma religião entre tantas outras, e, muito provavelmente, não seria das melhores.

Os cristãos que você conhece (talvez de sua igreja, inclusive) entendem o cristianismo de forma plena? Eles sabem o que é o Evangelho? Sabem o que é graça?

Um abraço,

C.

P.S.: A qualidade do vídeo não é das melhores, mas é o único que encontrei no Youtube.


 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O "Pão Nosso" no Catecismo Maior de Lutero: fragmentos


Não é por razões somenos que inculcamos o Catecismo com tanto empenho e queremos e solicitamos que seja inculcado. Pois vemos que, infelizmente, grande número de pregadores e pastores são muito negligentes a esse respeito, e desprezam seu ofício e essa instrução. Uns por causa de sua grande e sublime erudição; outros, porém, em razão de mera preguiça e solicitude pela barriga. [...] Ah! que são deveras comilões despudorados e servidores do próprio ventre. Com mais justiça seriam porqueiros ou cachorreiros do que curas d'alma e pastores.

Esse trecho é só para dar uma noção do tom do prefácio escrito por Lutero para o Catecismo Maior. Agora, menciono de imediato dois trechos selecionados da explanação dedicada à quarta petição:

Para sumariá-lo em breves palavras: esta petição quer abranger quanto pertence a toda esta vida no mundo, porque apenas por isso necessitamos do pão cotidiano. Agora, à vida não pertence apenas que o corpo tenha alimento, vestuário e outras coisas necessárias, mas também que seja de tranquilidade e paz o nosso relacionamento com as pessoas com as quais vivemos e lidamos em diário comércio e trato e toda sorte de atividades; em suma, tudo o que se refere às relações domésticas e vizinhais, ou civis e políticas. Pois onde houver obstáculos quanto a essas duas partes, de forma que relativamente a elas as coisas não andem como deveriam andar, aí também está obstaculizado algo que é necessário à vida, de sorte que não se pode conservá-la por tempo dilatado.

[...]

Que miséria há no mundo agora, já simplesmente por causa de moeda falsa, sim, por causa do cotidiano gravame e alta de preços no comércio comum, em compra e trabalho, por parte daqueles que a seu arbítrio oprimem os pobres e os privam do pão de cada dia! Verdade que temos de suportá-lo; mas eles que se precavenham, não lhes suceda perderem a intercessão comum, e se acautelem para que essa partezinha do Pai-Nosso não se volte contra eles.

É isso! Impressiona-me a franqueza e a atualidade do que Lutero escreveu há quase quinhentos anos.

Um abraço,


C.

[Fonte das citações: Catecismo Maior, conforme Livro de Concórdia, traduzido por Arnaldo Schüler.]

quinta-feira, 19 de maio de 2011

É isto um Lars von Trier? e Memórias antepostas de Woody Allen.


Não é do feitio deste blog definir sua pauta com base nas notícias que a grande mídia transmite. Mas, no presente caso, uma notícia de ontem me fez lembrar que queria ter escrito sobre uma da semana passada (acho). Então, escrevo sobre as duas.

Ontem, o diretor dinamarquês Lars von Trier - responsável pelo único musical que figura na lista de meus filmes prediletos (Dançando no Escuro) - se enrolou com a imprensa. Ele queria que seu comentário fosse recebido com bom humor. Mas isso é difícil quando ele diz que, querendo ser judeu, se descobriu nazista (referindo-se ao fato de que soube que seu pai biológico era alemão). A falha na comunicação dessa frase desencadeou tentativas de explicação que culminaram com a afirmação: "É, sou nazista!". Posteriormente, um pedido de desculpas, no qual Lars diz que não é anti-semita nem nazista.

Não acho que, no começo, sua intenção fosse de todo maléfica. Parece-me que seu humor sombrio o levou, contudo, a um buraco de difícil saída. O episódio não tira dele o aspecto de gênio ousado que carrega, a meu ver, desde Dogville e Manderlay. Mas me faz lembrar que o melhor comentário que já li sobre os eventos orquestrados por Hitler continua sendo a obra de Primo Levi. Muito do resto é conversa de boteco, sr. von Trier.



Vamos ao Woody! Há alguns dias, apareceu no Yahoo! uma nota dizendo que o lendário e ainda vivo diretor havia mencionado o livro de um escritor brasileiro afro-descendente, Machado de Assis, em uma breve lista de livros que "ecoaram nele" (alguma ideia melhor de como traduzir "resonated with me"? Apesar de muito literal, acho que "ecoar em mim" traz ainda alguma semelhança de sentido.). Dizia o Yahoo! que a fonte era o The Guardian. Fui ao site desse jornal inglês, que, por sua vez, remete ao site The Browser para a leitura da entrevista completa. Há algo de interessante na conversa. É mencionável a maneira como o diretor teve contato com o livro. Um brasileiro desconhecido lhe enviou um exemplar com um bilhete dizendo que ele iria gostar. Leu e gostou! Outro dado curioso é o fato de que o livro é referido como um romance cômico. É claro que há humor ali, mas duvido que um leitor brasileiro jovem o catalogaria como "cômico". Claro, o tradutor provavelmente usou um registro de linguagem mais próximo do usado atualmente entre os falantes de inglês. No nosso caso, a distância centenária entre nosso português e o de Machado pode dificultar o acesso imediato às risadas ou ao sorriso sarcástico. No mais, Allen é bem sensato ao dizer que o livro não o "influenciou", mas que aborda um assunto de que ele gosta, e que esse assunto é tratado com grande sagacidade, originalidade e sem sentimentalismo. Esse assunto, que permeia as obras tanto de Machado quanto de Woody, é, conforme sugere a resposta a uma das perguntas, existencial. De fato, é esse tipo de questão que mobiliza artistas ("artistas", não "celebridades". No Brasil o povo confunde essas coisas!) ao longo dos séculos.

A pergunta que me ocorre é: Como fica a arte produzida por um cristão, o qual tem suas questões existenciais (teoricamente) resolvidas na cruz? A diferença estaria só na motivação ou essa diferença de partida alteraria a condição ontológica do produto artístico?


Com ou sem arte,
Descendendo de judeus, alemães, negros, índios ou polinésios,
Rindo de Assis ou sendo motivo de chacota para Allen,
"Creio ... na ressurreição da carne...".


P.S.: Não esqueci do Pai Nosso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O "pão nosso" no Catecismo Menor de Lutero

Retrato de Lutero, pintado por Lucas Cranach

Acho que meus professores do ensino fundamental não gostavam muito do Martinho. Apresentaram-no como um beberrão, um grosso, um padre que quis casar, um interesseiro etc. Há um fundo de verdade em todas essas acusações. Ele parece ter gostado bastante de uma cerveja (era alemão, ora!). Também não foi muito gentil algumas vezes (isso era comum em seu contexto histórico-cultural). Quis casar. É verdade. Eu também. Tinha interesses, sem dúvida. Mas quais? Se seu objetivo fosse simplesmente ter uma vida tranquila, regada a comida, bebida e tempo para estudar, ele poderia ter continuado monje e professor sem problemas, sem que ameaçassem seu pescoço.

Pois bem, não vou defender Lutero. Na verdade, nunca o vi como um homem perfeito. Além disso, não concordo com a maneira como ele escreveu algumas coisas específicas. Mas, após começar a passear por seus textos, o estimo como dono de uma mente brilhante e percebo que parte das críticas que ele recebe advém de dois fatos:

1) Muitos fazem uma leitura anacrônica de seus escritos. Ler o texto de um homem que viveu no século XVI, como se ele os tivesse escrito depois dos anos 90 do século XX é, no mínimo, um erro.

2) Muitos o criticam sem ter lido nada de sua vasta obra. Aprendi uma coisa há já algum tempo: Se você quer saber o que pensam os metodistas, leia textos escritos por metodistas, não por batistas - ainda que você seja batista. E é óbvio que os termos "metodista" e "batista" da frase anterior podem ser trocados por quaisquer outros - católicos, anglicanos, luteranos, budistas, candomblistas, nadistas (ah, não, esses não escrevem!) etc - sem prejuízo para a correção da frase. Então, quer saber o que pensava Lutero? Leia Lutero! O problema é que muitos se acham no direito de julgar sem saber.

Aqueles meus professores... É. Duvido que tenham lido um sermão, um comentário, um artigo, uma música ou qualquer parte considerável da obra do reformador alemão. Além disso, é notável que o doutor Martinho Lutero tinha ao menos uma característica que eles deveriam imitar: habilidade e disposição para o ensino. Apesar de extremamente erudito, ele conseguia ser didático e compreensível até para os mais simples. Por isso mesmo, escreveu um Catecismo Menor.

Assim, ele começa o prefácio: A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino.

Quase quinhentos anos e, se ele visitasse o Brasil, não encontraria um cenário menos desolador, tanto com relação às pessoas em geral, quanto com respeito a muitos pastores. Por isso, o Catecismo Menor continua pertinente. Como seria muito longo reproduzi-lo integralmente, mesmo que me limitasse à parte concernente ao Pai Nosso, cito somente um trecho, aquele que trata da quarta petição:

O pão nosso de cada dia nos dá hoje.
Que significa isso?
Resposta: Deus, na verdade, também dá o pão de cada dia sem a nossa prece, a todos os homens maus. Suplicamos, porém, nesta petição que nos faça reconhecê-lo e receber com agradecimento  pão nosso de cada dia.
Que significa o pão de cada dia?
Resposta: Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades da vida, como: comida, bebida, vestes, calçado, casa, lar, campos, gado, dinheiro, bens, consorte piedosa, filhos piedosos, empregados bons, superiores piedosos e fiéis, bom governo, bom tempo, paz, saúde, disciplina, honra, leais amigos, vizinhos fiéis e coisas semelhantes.

(Fonte das citações: Catecismo Menor de Lutero, conforme publicado no Livro de Concórdia. Tradução de Arnaldo Schüler.)

P.S.: Na próxima postagem, apresentarei um interessante trecho do Catecismo Maior, também referente à petição do pão nosso de cada dia. Posteriormente, um mínimo comentário meu sobre o Pai Nosso e, a qualquer momento, uma receita de pão.

sábado, 14 de maio de 2011

A pizza de bacalhau e o diálogo entre cristãos de diferentes tradições


A situação é a seguinte: Quatro pessoas com gostos diferentes e a missão de compartilhar uma só pizza, com um só sabor. Um não come carne de boi, porco ou frango, bem como seus derivados. Outro gosta muito de proteína animal. O queijo não lhe basta. Outro come praticamente de tudo, mas está interessado em algum sabor diferente do habitual, será o encarregado de preparar cobertura e quer experimentar. O último também come praticamente de tudo, mas valoriza incrementos diferenciados.

O que fazer? Pensei, pensei, pensei e resolvi: Pizza de bacalhau. Não vai contra o gosto ou a restrição de ninguém e, para todos, seria novidade. Todos ficariam satisfeitos! A receita eu apresento no final da postagem. Agora, ofereço uma reflexão que me ocorreu enquanto não havia chegado à solução do bacalhau.

Observei que algo semelhante acontece quando cristãos de diferentes tradições se encontram. Há duas opções fundamentais: a ênfase nas divergências ou a valorização da convergência. Muitas vezes, só as diferenças são trazidas à mesa. Então, o atrito é certo. Um adepto do batismo de adultos tenta convencer os que batizam crianças. Os carismáticos querem converter os mais tradicionais. Estes últimos procuram desconstruir as crenças dos neopentecostais. Bem, não digo que sempre seja ruim confrontar opiniões e expor pensamentos diferentes. Mas há tempo e ocasião para isso. O problema a que me refiro é o fato de que, frequentemente, se perdem ocasiões de alegrarmo-nos com aquilo que nos é comum: a fé em Cristo como o nosso salvador. Isso acontece inclusive em encontros de famílias. Muitos já se achegam armados com argumentos engatilhados. Se alguém menciona o tema da disputa recorrente, dispara o sacro projétil vocabular, acreditando que o tiro será fatal. Mas não é. E logo vem o revide. As horas passam e ninguém percebe que a alegria da salvação ficou esquecida entre os escombros de uma batalha sem vencedor.

Acredito no diálogo respeitoso (não em um ecumenismo fingido). Entendo que as pessoas podem ser conscientes de suas diferenças e, ao mesmo tempo, felizes por sua convergência. Havendo ocasião (e por "ocasião" entendo a real oportunidade de um diálogo no qual cada um não procura vencer o outro, mas investigar os acertos e fragilidades de cada argumento com vistas ao crescimento mútuo), as questões mais polêmicas podem ser abordadas, mas não devem ocupar o lugar do que é mais importante: o amor, a comunhão, a fé e a esperança em Cristo.

A pizza de bacalhau a que me referi existiu realmente, na última sexta-feira. As quatro pessoas envolvidas éramos meus pais, minha esposa e eu. Minha mãe se ocuparia da massa, já tradicional na família, e eu cuidaria da cobertura. O resultado foi satisfatório: saudável e saboroso. Todos gostaram muito mesmo, pois o igrediente principal foi escolhido conforme um gosto convergente, não por imposição a partir de uma ou outra divergência! Portanto, me animei a apresentar a receita:

Pizza de Bacalhau (à moda do Saboroso Saber)

Ingredientes:

Massa

Dois copos e meio de farinha de trigo.
Um copo de leite morno.
Duas colheres de sopa (rasas) de fermento químico.
Uma pitada de açúcar.
Seis colheres de azeite de oliva extra-virgem.

Cobertura

Molho de tomate (Molho simples, só tomates mesmo. A única diferença é que usei o fundo da frigideira em que grelhei o bacalhau.)
300 gramas de muçarela ralada.
Um lombo pequeno de bacalhau (300 gramas mais ou menos), dessalgado, levemente grelhado em frigideira anti-aderente com azeite.
Uma cebola média cortada em pétalas.
Dezesseis azeitonas (azapa) inteiras.
Salsinha a gosto.
Azeite de oliva extra-virgem.
Cinco dentes de alho espremidos.
Um ovo cozido.
Um tomate pequeno em fatias finas.

Preparo:

Misturar todos os ingredientes da massa com as mãos até chegar a uma mistura homogênea. Cobri-la com um pano limpo e deixar descansar por 15 minutos. Depois, abri-la em forma circular, deixando-a bem fina (eu costumo usar um rolo, mas minha mãe consegue fazer isso com as mãos).

Acrescentar o molho espalhando-o bem. Logo, espalhe quase toda a muçarela (reserve um bocadinho). Por cima, espalhe a seguinte mistura que deve ser providenciada previamente: o bacalhau em lascas (não desfiado), as azeitonas, um fio generoso de azeite, a salsinha, a cebola e os alhos espremidos. Em seguida, disponha rodelas do ovo cozido e do tomate. Por último, despeje aleatoriamente o restinho de muçarela ralada.



Pronto! Só falta assar por uns 20 minutos em forno médio pré-aquecido.

Um abraço,

C.

P.S.: Não abandonei o "Pai Nosso". Logo, voltarei a postar textos relacionados com a oração.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mínima nota sobre o Pai Nosso no Novo Testamento em Grego

Codex Sinaiticus, Séc. IV. Atualmente, em Londres.

O próximo passo em meu propósito de apresentar uma mínima reflexão sobre a oração do Pai Nosso neste blog é mencionar como ela aparece no próprio texto do Novo Testamento. Ao leitor que não se interessa por esses detalhes, sugiro que aguarde as próximas postagens ou leia a anterior.  Ou, ao menos, aproveite as imagens e, quem sabe, o áudio que está ao final da postagem, com a oração pronunciada em grego. A um eventual leitor especialista em Crítica Textual, aviso que, embora tenha estudado o assunto em algumas disciplinas, não é minha especialidade. Portanto, qualquer contribuição será muito bem vinda e proveitosa. Também, peço que não se julgue este blog por esta postagem, que é bem atípica.

São dois, então, os trechos que me interessam: Mateus 6:9-13 e Lucas 11:2-4.

A oração transmitida em Mateus não apresenta muitas variações nas lições dos manuscritos (minha referência para essa e todas as outras afirmações concernentes à crítica textual é a seguinte edição crítica: THE GREEK NEW TESTAMENT. Fourth Revised Edition Edited by Barbara Aland et ali. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2000.) A bem da verdade, apenas uma variação considerável foi encontrada. Muitos manuscritos importantes omitem o trecho final que costumamos usar: "Porque teu é o reino e o poder e a glória para sempre. Amém." Os editores observam que essa frase provém de 1 Crônicas 29:11-13. É muito provável, então, que algum copista a tenha tomado emprestado do texto veterotestamentário e inserido ao final da oração de propósito (ou que fosse uma prática acrescentá-lo na realização da oração em voz alta e que, posteriormente, esse costume se tenha transferido ao texto - essa ideia eu acho que tive agora).


Página de Mateus no Codex Sinaiticus (Séc. IV). As setas indicam
o início e fim da oração do Pai Nosso.

Quanto ao texto em Lucas, há mais problemas. Os editores (Barbara e Kurt Aland e cia.) tomam uma versão reduzida, encontrada em um importante papiro do século III (Papiro 75), no Códice Sinaítico (séc. IV) e em alguns outros importantes manuscritos, como sendo a que mais se aproxima do original. Se bem interpreto o resultado do trabalho feito, compreendo que o entendimento deles foi o seguinte: o texto original de Lucas era reduzido, mas os copistas tentaram harmonizá-lo com o de Mateus, agregando elementos da oração tal qual apresentada no livro desse evangelista. Um exemplo: Nos manuscritos recém mencionados (e na edição, portanto), o vocativo inicial é simplesmente "pai" (páter), enquanto outros tantos manuscritos trazem a expressão como em Mateus: "Pai nosso que estás nos céus" (páter hemôn ho en toîs ouranoîs). A expressão "seja feita a tua vontade..." também não se encontra na edição, por não se apresentar no papiro 75 (sobretudo por causa disso, suponho, uma vez que esta sim aparece no Códice Sinaítico.) Há duas variações na petição relativa ao "pão nosso". Mateus usa o imperativo no aoristo e o termo "hoje", sémeron, ao final da frase, enquanto Lucas usa o imperativo no presente (Uma mudança irrelevante, a meu ver. Inclusive, notei que, embora os Aland não o anotem, o Sinaítico também apresenta o imperativo aoristo também no texto de Lucas) e, ao final, utiliza uma expressão talvez bem traduzida como "diariamente", tò kath'heméran. No pedido de perdão, Mateus usa o sintagma tà ofeilémata, "as dívidas", enquanto Lucas usa tàs hamartías, "os pecados". Quanto aos que nós perdoamos, Mateus se refere a eles por um substantivo: aos devedores, toîs ofeilétais. Já Lucas usa uma expressão com particípio e acrescenta um "todo": "a todo que deve a nós", pantì ofeílonti hemîn. A última frase de Mateus, "mas livra-nos do mal", não aparece na edição do texto lucano, por não se fazer presente no papiro 75, na primeira versão do Sinaítico e em outros manuscritos importantes. Bem, há outras diferenças mínimas nos textos e alguns acréscimos interessantes em manuscritos menos importantes, mas não menciono tudo, afinal, isto é um blog simplesmente.

Resta saber como consideraremos o problema. Não há como negar o fato de que o texto em Lucas apresenta variações importantes em alguns manuscritos muito antigos. Será certa a interpretação que a equipe dos Aland dá para o fenômeno? O texto original da oração em Lucas seria realmente menor e acrescido de expressões provindas de Mateus em manuscritos posteriores? Bem, a hipótese é bem plausível. Outra hipótese, porém, me ocorre (sem muito rigor, mas apresentável, suponho): Talvez o texto da oração em Lucas fosse tão completo quanto o de Mateus, assim como aparece em alguns manuscritos, mas, por se tratar de um texto tão conhecido, os copistas de alguns exemplares muito antigos (papiro 75, por exemplo) podem ter se desleixado no trecho. Ao escrever "páter", sua mente já supunha toda a frase que costumava recitar diariamente, "páter hemôn ho...". Então, tendo lido "páter", já passavam os olhos e as mãos à cópia que faziam, imaginavam toda a expressão e, por descuido, achavam já tê-la escrito toda ao voltar a olhar para o texto fonte. (Curioso o fato de que, no Sinaítico, em Mateus, Páter aparece abreviado - PER - enquanto, em Lucas, aparece toda a palavra). Uma questão em favor desta hipótese seria: Se os copistas quiseram harmonizar o texto de Lucas ao de Mateus, por que não o fizeram com respeito ao vocabulário? Por que não trocaram hamartías por ofeilémata? Por que não regularizaram os verbos (substituindo dídou por dós, afíomen por afékamen...)? Claro, é só uma hipótese que formulei agora e que não pretendo defender, pois daria muito trabalho.

Soma-se ao problema, o fato de que, provavelmente, esse texto que temos da oração seja uma tradução do discurso de Jesus feito em aramaico. (Sei que alguns insistem que Jesus falava em grego na Judeia, mas não me vejo convencido, embora reconheça a possibilidade de que ele fosse, no mínimo, bilíngue.)

Seja como for, o importante é que temos a oração preservada. Aparentemente, mais bem preservada na transmissão do texto de Mateus, que serve de base para as versões que hoje escutamos nas igrejas e lares cristãos.

E se esta breve exposição não serviu para elucidar problema algum (Acabo de me dar conta que os não-especialistas em Novo Testamento devem ter se entediado, e os especialistas devem ter sentido falta de novidades!), ao menos serve para lembrar que a Bíblia que temos hoje é resultado do esforço de muitos. Em minhas conversas várias, percebo que os cristãos que só usam suas Bíblias bonitinhas em português não fazem ideia do trabalho dos que lidam com os textos em suas línguas originais, dos tradutores inclusive. Já estes últimos costumam lidar somente com o texto já editado, não considerando o trabalho dos editores e críticos textuais, que se esforçaram muitíssimo entre os manuscritos. Os editores e críticos textuais, por sua vez, não se lembram... não, mentira, eles se lembram sim... do trabalho penoso dos copistas. E os copistas da antiguidade e Idade Média, espero que tenham valorizado o trabalho daqueles primeiros cristãos, que com afinco nos transmitiram palavras tão especiais.

Esta nota serviu também para indicar o texto que utilizarei em futura postagem com comentário breve: a oração do Pai Nosso, tal qual transmitida no Evangelho de Mateus, conforme a edição dos Aland (talvez com alguma referência a um termo do texto de Lucas em comparação).

Para terminar, deixo o som do Pai Nosso, conforme Mateus, em grego. (Perdoem a pronúncia improvisada... "porca e avacalhada", como dizia um professor meu. Acontece que não há mais falantes nativos de grego antigo com quem possamos praticar.) O primeiro áudio traz o texto falado, simplesmente pronunciado por mim. O segundo, tem uma melodia que usei para decorar o texto (Pobre de minha esposa que me escutou cantando isso pela casa vários dias!). Não fica bonito não, mas ajuda!

Pai Nosso em grego, falado:
Pai Nosso em grego, com melodia para facilitar a memorização:

P.S.: Depois posto algo mais tranquilo para descansar a mente, além de uma música para aliviar os ouvidos.

Problemas no Blogspot!

Nota 1: Os usuários do Blogspot estivemos várias horas sem poder postar nada ou editar nossos blogs de qualquer forma... Estivemos, segundo informava uma aviso do Blogger, em modo 'somente leitura'. Uma vez, há alguns meses, pensei que seria bom se a humanidade decidisse entrar em modo 'somente leitura' por um ano. Todos concordariam em não escrever nada. Só leríamos durante um ano! Pensei nisso por perceber que tem mais gente escrevendo do que lendo. Mas essas últimas horas me fizeram repensar minha proposta. O modo 'somente leitura' é meio chato, porque aprendi a ler escrevendo.

Nota 2: Depois da pane, permanece desaparecida uma postagem que eu havia colocado sobre o Pai Nosso no NT Grego. Esperarei algumas horas. Se não reaparecer, terei que escrever parte dela novamente, pois não aparece completa em meu Painel.

Nota 3: Tomara que agora tudo se aquiete.

Abraço,
C.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A oração como exercício de humildade: breve reflexão com auxílio de uma jovem tehuelche

"Plegaria de la india tehuelche", no Jardín Botánico de Buenos Aires.

Não resta dúvida quanto ao que faz essa moça. Está de joelhos, com as mãos juntas, seu rosto se volta para cima e sua boca entreaberta sugere que balbucia algumas palavras. As palavras não se ouvem, mas seu corpo as indica como sendo uma súplica. Por que ela suplica a Deus? Quais seus motivos? É uma índia dos tehuelches, povo da Patagônia. Talvez sofra como tantos povos oprimidos pelos Estados modernos que se formaram na América. Não lhe faltarão motivos para pedir. Mas o motivo não importa tanto quanto sua presente atitude. Os tehuelches são conhecidos por serem altos. Já foram referidos como "raça de gigantes". Mas essa índia não é altiva. Ela não exibe seu tamanho com orgulho, mas se ajoelha em humildade para fazer sua oração.

É sobre essa atitude que ando refletindo nestes dias: a oração. Estamos sempre em contato com o Eterno por meio de seu Espírito que em nós habita. Ele, por sua vez, se revela como um pai bondoso. Quando lhe dizemos algo em meio a nossas tarefas, ele escuta. Por que então fazer como essa jovem tehuelche? Por que separar alguns minutos para mudar nossa postura e fazer uma oração, uma súplica? Não seriam suficientes esse diálogo permanente que temos com Ele e as orações que fazemos aos domingos na igreja? Esses questionamentos parecem convincentes e podem até desestimular a prática da oração. Mas talvez não tenham sido formulados de forma correta e piedosa. A questão não deveria ser sobre suficiência, mas sobre excelência. O que é excelente como prática de oração para nós cristãos? Nesse caso, a atitude de separar um tempo para orar se mostra essencial. Não porque o bom Deus precise de nossas orações para agir, mas porque nós precisamos de nossas orações para reconhecer o agir de Deus. A oração é um exercício de humildade. (Claro, se o propósito for ruim, a ação também pode converter-se em algo danoso. Refiro-me neste texto à oração que se faz a Deus, não àquela que alguns fazem "nos lugares públicos", para serem vistos. Esta já não é humilde, mas motivada por um vaidoso orgulho de um pretenso fervor religioso.)

Quando separamos uns minutos para a súplica, estamos dizendo a Deus e a nós mesmos que dependemos Dele, que reconhecemos que é Ele a fonte de todo nosso bem. Frequentemente, negligenciamos esse hábito quando tudo está em ordem, justamente por (inconscientemente talvez) julgarmos que somos auto-suficientes. Afinal, a conta bancária está sem problemas, a saúde está boa, a família está alcançando seus resultados... Somos facilmente iludidos por essa aparente estabilidade. Porém, quando algo começa a ir mal, aí sim, nos voltamos para Deus e pedimos. Podemos mudar essa prática. Podemos orar sempre, estando tudo bem ou não. Dessa forma, exercitamos a percepção de nossa dependência e aprendemos a confiar mais no Eterno e menos em nós mesmos.

Bem, resolvi pensar sobre a oração por causa de uma leitura do Pai Nosso que nós (o pastor de minha comunidade, o pastor estagiário que nos auxilia neste ano e eu) fizemos aqui em casa. Uma leitura descontraída, mas atenta,  recompensada por café e rocambole.  Percebemos que ainda há o que se pensar no texto. Portanto, a esta postagem devem seguir outras sobre o assunto. Provavelmente, apresentarei um  mínimo comentário meu sobre o texto do Pai Nosso no Novo Testamento em Grego, algumas observações de Lutero em seus Catecismos, além de alguma breve elocubração minha. Por enquanto, contudo, deixo que você reflita sobre esse aspecto da oração (o exercício de humildade); reflita e pratique.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre a importância de se conhecer a roça

Cavalos com sede, entre SJDR e Tiradentes, Minas Gerais

Na primeira vez em que me ocorreu o que exponho nesta nota, eu não estava lendo a Bíblia, mas Os trabalhos e os dias, de Hesíodo. Um amigo (que estuda esse poema a fundo) e eu nos encontramos com alguma frequência para ler uns versos e conversar. Pois bem, depois de quebrar a cabeça na tentativa de encontrar uma tradução mais adequada para alguns dos trechos, observei que nossa dificuldade nem sempre era linguística apenas, mas de experiência. Explico-me: O contexto desse poema grego é eminentemente rural e, por isso, algumas práticas e fenômenos são completamente estranhos para alguém que só está habituado à vida em grande cidade. Claro, não ignoro que a vida nas roças brasileiras não é igual àquela que levavam os gregos há 2800 anos. Mas a terra é semelhante, bem como a experiência de observar o clima, a lida com os animais e seus ciclos, a observação das plantas etc. Tendo percebido isso com Hesíodo, compreendi que algumas das dificuldades de compreensão que tenho com alguns textos da Bíblia podem advir de problema similar.

Também na Bíblia, o contexto rural é amplamente perceptível. Nos primeiros livros, encontramos os personagens principais como criadores de cabras. Depois, um pequeno pastor é ungido rei. E mais adiante, um profeta se diz boiadeiro. Certamente, todos esses que permeiam os textos deixaram rastros rurais de suas experiências nas páginas da Escritura Sagrada. Não é muito diferente no Novo Testamento. Em algumas cartas encontramos uma ou outra referência à vida no campo. Mas é nos discursos de Jesus que esse universo está fortemente presente. Termos como "semeador", "ovelhas", "sementes" e "árvores" são frequentemente mencionados e utilizados na composição de suas parábolas, metáforas e comparações. O nosso distanciamento desse ambiente pode tornar ainda mais difícil a apreensão dos significados pretendidos. Quando se trata de uma metáfora, o problema se avoluma, pois além de precisar compreender o referente concreto que é significado pelas palavras, temos que tentar alcançar algum entendimento sobre o que esse referente evocava aos ouvintes primeiros e, ademais, como isso era mobilizado no imaginário, com vistas à apreensão do sentido do discurso.


Como exemplo, menciono um dos muitos versos em que Jesus se refere à sua relação com os seguidores como a de um pastor com suas ovelhas. Alguns judeus lhe pediam que dissesse com clareza se era o Ungido. Então:


"Respondeu-lhes Jesus: 'Eu disse a vocês e vocês não creem. As obras que eu faço em nome de meu Pai, elas testemunham a respeito de mim. Mas vocês não creem, porque vocês não são das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz. E eu as conheço e elas me seguem!'" João 10:25-27


Não digo que o texto nos seja incompreensível, mas que poderia ser entendido com mais profundidade. Com uma mais completa iniciação nos assuntos campestres, podemos ter acesso à percepção de diferentes alternativas de leitura, que, segundo penso, estariam disponíveis à reflexão dos primeiros receptores. Diga-me se faz algum sentido o que penso depois de ler o seguinte caso verídico que me foi contado:


Um pastor (pastor de igreja) visitava a fazenda de um membro de sua comunidade. A noite caía enquanto os dois caminhavam por uma estrada perto da casa. O pastor, então, ao ver as ovelhas soltas no pasto, estranhou e perguntou ao homem:
- Já está tarde. O senhor não vai recolher o rebanho? Estou atrapalhando seu trabalho?
- Não, não preocupa não. Hoje é um pouco diferente. Vamos esperar aqui. Preste atenção no que vai acontecer.

Os dois se assentaram. Depois de uns quinze minutos, uma das ovelhas se separou do grupo e se colocou perto de uma árvore a uns bons metros de distância. Logo, ela pariu uma pequena e frágil ovelhinha.
- Escuta. Disse o roceiro.
A ovelha mãe baliu (balir é o que fazem as ovelhas) alto e a bebê respondeu. Em seguida, a explicação:
- Pastor, as ovelhas fazem isso quando vão parir. Elas se separam para que as crias possam ouvir bem e especificamente o seu balido, sem confundi-lo com os das outras ovelhas. E de agora em diante, a pequena ovelhinha vai reconhecer sua mãe pelo seu som, mesmo que elas estejam separadas em meio a umas cinquenta ovelhas.


Pois bem, esse pastor da história contou o relato a meu pastor e, agora, eu o conto a você, ao mesmo tempo em que o registro por escrito. Com essa observação do roceiro (sobre a relação das ovelhas com o reconhecimento pela voz) em mente, a resposta de Jesus àqueles que lhe perguntavam se ele era de fato o Ungido faz ainda mais sentido. Eles não são do rebanho de Jesus, não são suas crias, e, por isso, não reconhecem mesmo sua voz, diferentemente de suas ovelhas. Estas, não precisam perguntar-lhe nada assim, de modo rude, nem duvidar vagando sem rumo. Elas simplesmente reconhecem sua voz e o seguem. (Exagerei na leitura?) Além disso, abre-se também a possibilidade de se aperceber que Jesus pode, por meio dessa fala, indicar que ele, como pastor, tinha se feito ovelha entre as ovelhas, para que essas pudessem reconhecer sua voz (Essa leitura já é de minha [ir]responsabilidade). Ou seja, um discurso simples, da roça, pode condensar uma considerável profundidade teológica. O Pastor Eterno tem sua voz reconhecida entre as ovelhas, os seres humanos, justamente por se irmanar com elas.


Por essa e outras tantas, começo a pensar que os hermeneutas deveriam fazer cursos de atualização em hotéis fazenda... Claro, essas informações podem ser encontradas em livros, em alguns canais de televisão, ou na internet, alguém poderá dizer. Mas parece-me que uma experiência mais ampla, de percepção, de vivência no meio rural pode ser mais produtiva, pois, "em campo", as informações não são selecionadas e dosadas conforme o gosto do fornecedor, mas conforme o fluxo da vida, assim como no contexto de produção dos discursos antigos aqui mencionados.


E tendo eu acabado com as palavras, que Milton e Chico nos entretenham:


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um pouco mais de paciência



O ponto de partida para esta reflexão será a música "Paciência", do cantor e compositor pernambucano Lenini. É ele que eu convido hoje para nossa cozinha. É ele que, segundo penso, dará alguma boa instrução ao hermeneuta e ao cozinheiro.



Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára

Com essa música lenta, Lenini faz lembrar da pressa, que curiosamente esquecemos experimentar, embora nos sufoque todo o dia (às vezes também à noite). Esquecemos dela justamente por estarmos tão apressados o tempo todo. E assim seguimos, em uma vida quase mecanizada, guiados por conselhos que nem percebemos escutar, mas que nos redirecionam e condicionam como controles remotos que estão em posse de uns poucos. E o hermeneuta e o cozinheiro com isso? Bem, a resposta mais óbvia seria: é preciso tempo para cozinhar e para ler. Mas eu a completo: é preciso tempo e paciência para bem cozinhar e bem ler.

Na cozinha, a paciência nos permite esperar. Esperamos o fermento fazer seu efeito nas massas, o creme chegar à consistência exata, o assado estar no ponto etc. E não importa nossa ansiedade. Em alguns casos, de modo algum conseguiríamos reduzir prazos sem afetar os resultados. E então, em meio a vasilhas sujas, frustrados diante de um pão murcho, nos lembramos da observação do Nazareno: "Quem aí, dentre vocês, que ficando preocupado vai ser capaz de acrescentar uns poucos centímetros a seu tempo de vida?" (Mt 6:27). É preciso ter paciência.

O leitor, por sua vez, só deixa de ser mediocre quando desenvolve sua capacidade de ser paciente. Passar os olhos por um texto é diferente de ler, assim como ver é diferente de observar atentamente. Em Mediã, Moisés viveu uma das experiências mais conhecidas da Bíblia: a cena da sarça ardente. Muitos a veem como um milagre, uma demonstração de poder e sacralidade do Eterno. Mas é bem provável que se tratasse também de um teste de atenção. Se você se interessa por entender minimamente essa leitura, gaste alguns segundos com o parágrafo seguinte. Se acha desnecessário ou tem pressa demais, salte-o.

No capítulo três de Êxodo, conta-se que Moisés viu uma sarça que ardia sem se consumir e propôs a si mesmo dar a volta para ver (“darei a volta e verei”) o que acontecia ali. A atitude é observada por IHWH, que reage de forma interessante: “E viu IHWH que ele deu a volta para ver, e o chamou Deus...” (cf. Ex 3:1ss). De forma sutil, a construção parece colocar a fala de IHWH somente após a constatação da insistência de Moisés em ver, o que pode sugerir que o fenômeno se tratava de um teste, para se averiguar a capacidade de observação do futuro legislador. Ou seja, muitos poderiam ver o fenômeno e sequer observar que o fogo não consumia a planta (leva um tempo para perceber isso). Poderiam ver e pensar: "Olha só, um arbusto queimando". E desviar o olhar. (observação: Este parágrafo faz parte de um texto sério meu ainda não concluído nem publicado, por isso, fica difícil apresentar uma referência)

Se Moisés não tivesse paciência, se julgasse não ter tempo para observar melhor aquele fenômeno, o que (não) teria acontecido? Semelhantemente, nós, diante dos textos (e especialmente diantes das Escrituras), muitas vezes não gastamos o tempo necessário para perceber que há algo mais, algo extraordinário (ainda que em sua profunda simplicidade) entre as linhas que se nos apresentam. Se sem fé é impossível agradar a Deus, podemos dizer que sem paciência é impossível entender sua Palavra.

Sem paciência, sem calma, sem a devida percepção de que o tempo pode ser administrado de modo diferente, não seremos jamais capazes de cozinhar bem, nem de ler com o cuidado que a lida com as sagradas letras solicita.

Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara... tão rara