terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cada pastor é um teólogo? Cada teólogo, um pastor?

 Detalhe da St Edward's Church, Cambridge, Inglaterra

Em sentido amplo, de teólogo e louco todo cristão tem um pouco. Assim, seria verdade dizer que cada pastor, como cristão, é um pouco teólogo também. No entanto, falando sério e em sentido estrito, eu diria que nem todo pastor é (e nem precisa ser) teólogo. Estou dizendo que acho desnecessário que os pastores estudem em cursos de teologia? De maneira alguma! Pelo contrário, defendo que estudem e muito, até mais do que estudam hoje. Mas não considero teólogo todo aquele que se forma em teologia. Como, analogamente, não se deve considerar filósofo todo aquele que se forma em filosofia.

Todo pastor deve estudar teologia para ter um conhecimento mais profundo de sua fé e ensino, bem como para ter acesso a instrumentos que o habilitarão a ler melhor e explicar, verificar e dialogar sobre questões importantes no cotidiano de uma Comunidade de Fé. Isso não faz dele um teólogo. Um teólogo é alguém capaz de formular um pensamento teológico independente e, ao mesmo tempo, profundamente embasado e em diálogo com uma ou várias tradições teológicas. Um pastor precisa saber acessar comentários bíblicos, dicionários e manuais de teologia. Um teólogo precisa saber pensar teologicamente e elaborar, em forma de texto, pensamentos minimamente sistematizados e dotados de contribuição pessoal.

Nem todo pastor precisa ser um teólogo, mas é bom que goste e conheça bastante de teologia (se possível, que tenha diploma de graduação nessa área do conhecimento). Por outro lado, simetricamente, nem todo teólogo precisa ou deve ser pastor. A função pastoral exige habilidades e características pessoais que extrapolam o conhecimento e o fazer teológico. Qualquer cristão que observe com cuidado os afazeres de um pastor ou padre é capaz de perceber esse fato. Por isso, não me detenho em demonstrá-lo.

Há muitos bons pastores. Há muitos bons teólogos. Mas há poucos bons pastores que também são bons teólogos. Lutero foi um desses, segundo penso. Ele sabia pensar teologicamente (sua erudição e capacidade de articulação de textos e ideias é impressionante), mas também sabia atentar para a simplicidade das crianças e das pessoas mais humildes, de modo a comunicar o Evangelho de maneira compatível com todos. Lutero era um pastor porque sabia alimentar e cuidar de suas ovelhas. Lutero era um teólogo porque sabia ver em detalhes e dialogar de modo profundo e refletido a respeito do alimento que oferecia. (Olha aí uma analogia inesperada: O pastor está para o cozinheiro como o teólogo está para o nutricionista ou engenheiro de alimentos!)

Quase me detenho no Martinho, mas falta uma observação para fechar o texto. Bons teólogos que não têm jeito pra pastores (mas que insistem em sê-lo) acabam não conseguindo cumprir bem e com prazer a função pastoral. Muitas vezes, eles até têm ovelhas, mas são aqueles pastores do cristianismo cult, que mais parecem artistas alternativos do que pregadores, e que não alcançam ou almejam alcançar os objetivos verdadeiros da Igreja. Ou são aqueles intelectuais carrancudos que não querem sair do escritório por nada. Já os bons pastores que não têm jeito para teólogos (mas que insistem em expressar publicamente seu próprio pensamento pseudo-teológico, ou pré-teológico) acabam divulgando ideias da carochinha como se fossem verdades bem pensadas.

O que proponho: Que a distinção seja divulgada, para que as vocações não sejam confundidas. Que valorizemos todo serviço que se presta à Igreja. Que saibamos colocar o pé no freio quando percebemos que estamos invadindo áreas em que não nos movimentamos com muita agilidade.

Um abraço em especial a pastores, teólogos e pastores-teólogos,

Cesar, que não é nem uma coisa nem outra, mas que não resiste e acaba falando de tudo isso.

2 comentários:

  1. É maravilhoso esse mundo do saber, que nos coloca diante de um texto que fala aquilo que muitas vezes não temos coragem de abordar. Olhando para o cristão todos somos chamados a sermos pastores, mas Deus prefere que nós escolhemos alguns para exercerem a função em nosso lugar. Por isso o chamado é da igreja e não do pastor. Mas, para isso ele tem que ter conhecimento teológico para julgar a ação de seu pastor. Falta, esse conhecimento e a coragem para mudar a realidade em que vivemos. Todo cristão é um pastor! O teólogo, não sei?

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  2. Luterano,
    Obrigado por sua participação! Você é sempre bem-vindo para um papo ou para um café. Se possível, um papo com café. Ainda devo escrever mais uns dois textos sobre o pastorado em breve... São coisas que pensei nos últimos dias e que mudaram algumas de minhas perspectivas.
    Abraço,
    Cesar

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