sábado, 8 de outubro de 2011

Goya e nós: ver a guerra


Uma vez, entrei numa sala cheia de quadros de Goya. Provavelmente, o melhor espaço em uma cidade de que não gostei tanto. Estar cercado de Goya é uma experiência interessante. É como se o porão de uma alma tivesse sido esvasiado e colocado à luz para a contemplação. Entre todos os quadros, por ignorância talvez, o que mais me chamou a atenção foi um que eu já conhecia pelos livros: "Escena de Guerra", pintado por volta de 1808.


A cena não é pintada com detalhes. Não há contornos bem definidos, mas pinceladas soltas e ligeiras que misturam as figuras com a nebulosidade do entorno. Mulheres estão em meio à batalha. Alguns caem ao chão. Mas percebo uma certa impessoalidade, já que não se caracteriza ninguém específico. Afinal, o quadro não é um retrato de uma pessoa, nem foca em um evento determinado. É a cena de uma guerra, como muitas possíveis. Mas há uma figura que se realça, não por maior definição. Pelo contrário. Ela não recebe nem as cores que as demais têm. Está quase no centro do quadro, mais ao fundo, na parte clara, com os braços levantados. Ela ou ele assiste a cena como nós, mas do outro lado da obra. Isso me sugere que se trata de um espelho. 

O outro espectador, dentro do quadro, reflete este cá de fora. E se ele me vê de lá, como eu o vejo de cá, para ele eu estou no quadro, na cena de guerra. E é verdade, já que a perversidade da contenda humana não se enquadra num quadro, mas transpassa nossa história e nosso interior desde os dias de Cain. E ele - a  figura do outro lado - levanta os braços. Por quê? Está assombrado com o que vê? Ou será que ele representa Ares, o deus da guerra, que vibra e se deleita com a cena, como alguns de nós, secretamente, diante de um jornal sensacionalista? Ou será que posso ver-me refletido com os braços erguidos em prece à minha única esperança, o Deus de Paz? Ou, ainda, poderíamos imaginar que ele grita, como queríamos também poder fazer, para parar a peleja, ou melhor, para movimentar a peleja estática, de modo que as armas fossem baixadas e o céu de novo tivesse cor?

Goya pra mim é isso. É a escuridão de uma alma que provoca a pesquisa em outras almas. Contemplando algo assim, o humano percebe sua humanidade. E, no assombro, a carência é revelada. 

Que o Eterno se apiede de toda nossa existência em guerra, porque nossa maldade parece não ter limites e, muitas vezes, não sabemos nem o que pensamos diante da dor e do medo. Somos muitos, perplexos em meio à maldade, sem saber olhar para a Luz.

Abraço,

Cesar


P.S. Escrevi isso porque há uma mostra de obras de Goya ("Los Caprichos de Goya") em Belo Horizonte atualmente. São gravuras que estarão expostas entre 3 e 30 de Outubro no edifício da Prefeitura de Belo Horizonte. A entrada é franca!

P.S.' Escena de Guerra encontra-se atualmente no Museo Nacional de Bellas Artes, em Buenos Aires, Argentina.


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