quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O quiabo intercultural e o almocinho multicultural: pensando conceitos com a culinária

 
foto do site www.nutricaoemfoco.com.br

O objetivo desta postagem é modesto: diferenciar "interculturalidade" de "multiculturalidade", conceitos que julgo importantes para se aproximar do contexto cultural do século I d.C.. A culinária nos ajudará na ilustração.

De início, imaginemos duas possibilidades. Primeiro, pensemos em um almoço que reúne duas famílias que estão se confraternizando. Uma é mineira. A outra, italiana. A família mineira se responsabiliza pela comida, enquanto a italiana toma conta da bebida. Posta a mesa, vislumbramos um delicioso e típico frango com quiabo, um angu mineiro, couve refogada e arroz com alho. E, no meio de tanta gostosura, garrafas de vinhos tintos italianos. Depois do almoço, os mineiros trazem a goiabada com queijo e os italianos contribuem com um bom capuccino.

Agora, pensemos noutra situação (e esta não será hipotética). Eu estou em casa e tenho quiabo. Decidimos que teremos frango com quiabo e angu, para combinar com a chuva mansa lá de fora. Ótimo. Mas procuro limão e não tenho. Procuro vinagre e não tenho. Como retirar a baba do quiabo sem um desses ingredientes? Corro os olhos e, ao lado do azeite, reparo no nosso "Aceto Balsamico di Modena", o que é traduzido "Vinagre Balsâmico de Modena", um alimento com a famosa "indicazione geografica protetta", o que significa que para ter o nome que tem, ele precisa ter sido produzido especificamente na região da cidade de Modena, na Itália. É um vinagre especial, escuro, feito a partir de vinho tinto e mosto de uva. Bem, é o que temos. Lá vou eu picar o quiabo, começar a refogá-lo no azeite até aparecer a baba, e, então, acrescentar generosa quantidade do Vinagre Balsâmico. Como é escuro, o prato parece que vai ficar bem diferente. O sabor também. Não importa. Acrescento um pouco de extrato de tomate e o frango já previamente cozido. Borbulha e cheira um tempo no fogão. Pronto. O resultado é fenomenal. Entra pro caderno de receitas.

Esta última situação é minha ilustração da interculturalidade. Elementos de duas (ou mais) culturas se misturam, se comunicam e produzem resultados novos. Já a situação anterior, a do almoço entre mineiros e italianos, representa a multiculturalidade, que indica a coexistência de elementos de culturas diferentes em um mesmo lugar e tempo. Eles estão juntos, mas as interações não são tão explícitas, cada um tem seu espaço.

É isso. Frequentemente, erramos na apreciação de algumas cenas e fatos do Novo Testamento porque queremos ler o contexto da época como multicultural, quando, em muitas ocasiões, precisamos estar sensíveis à interculturalidade que se evidencia.

Aprendeu alguma coisa? Bom, pelo menos a ideia do quiabo você deve ter aprendido. Faça, porque fica muito bom mesmo, com uma coloração mais escura e um sabor todo especial.

Um abraço,

Cesar


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