quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Jet ski desgovernado e um Brasil que não tem mais jeito

Nestes dias, soubemos da triste notícia de uma menina de três anos assassinada por um Jet Ski desgovernado. Assim descrita, a coisa parece estranha. Como um Jet Ski, que é uma coisa impessoal e, por conseguinte, carente de vontade própria, poderia assassinar alguém? Sim, a minha frase é paradoxal. Mas, com ela, quero observar que é mesmo paradoxal o modo como grande parte da imprensa brasileira costuma divulgar os "acidentes" que pululam por este país. "O carro ficou desgovernado" (Carro rebelde!). "Ele perdeu o controle da direção" (como se a "direção", a partir de então, fosse dada ao acaso, e tudo que tiver acontecido a partir daí é culpa do mesmo acaso.). "O caminhão perdeu os freios!" (Quem ajuda o caminhão a procurá-lo?). "Ele passou mal ao volante!" (Porque não tomou o remédio que sabia que tinha que tomar! Ou porque alguém a serviço do Detran foi descuidado ao conceder-lhe a renovação da carteira.) E por aí vai.

"Acidentes não acontecem", como disse um médico cansado de atender casos de trauma, "eles são causados". Totalmente verdadeira a afirmação. Acidentes são causados por pessoas que descumprem regras de operação, de segurança, de manutenção etc. E como, no Brasil, nós não somos dados à observação estrita de regras e procedimentos, os acidentes são causados abundantemente todos os dias. E isso continua a acontecer por um motivo simples. Na segunda feira de carnaval, pude escutar minha vizinha dizendo ao filho pequeno: "Hoje você vai ter que sentar na cadeirinha, porque tem polícia!" Lindo! O filho entende assim: "Filho, hoje, nós vamos cumprir a regra porque existe a possibilidade de sermos punidos, viu? Não vamos poder fazer como nos outros dias". A escola do desrespeito às regras começa cedo para os brasileirinhos.

Aliás, para os brasileirinhos que têm o direito de viver, pois outros tantos são assassinados por pessoas que, inocentemente, descumprem regras aparentemente bobas, por pessoas como certos pais que acham normal dar um Jet Ski a um garoto de 14 anos. "Afinal, o governo não percebe que é só um brinquedo?"

Não concordar com uma ou outra lei não é errado. O errado é o hábito de descumpri-las, em vez de lutar para que sejam mudadas. Se acham que o filhinho deveria usar o Jet Ski, deveriam manifestar-se a favor da mudança da lei e não ensinar o adolescente a ser mais um desrespeitoso.

Mas a maioria das pessoas fazem o mesmo que esses pais irresponsáveis. Escolhem leis para cumprir e outras para não cumprir. O sujeito acha absurdo se alguém estaciona na entrada de sua garagem. Briga! Exige seu direito! Esbraveja que é falta de respeito! Mas, logo que consegue sair de casa, não respeita a primeira faixa de pedestre que encontra. Cada um se julga no direito de fazer isso ou coisas semelhantes. E a bagunça se generaliza! Quer ver um exemplo vivo disso? Venha ver o trânsito de Belo Horizonte!  (Aliás, tem regras que os brasileiros fazem ser seguidas estritamente: aquelas famigeradas regras evocadas em processos judiciais que amenizam, anulam ou protelam as punições merecidas pelo descumprimento de outras regras!)

E a consequência é grave. Não só o Jet Ski, mas também o Brasil está desgovernado. E não é por culpa do governo, simplesmente. O problema é mais geral, é da população. Como governar um navio cujo timão não muda com precisão o rumo tomado?

A nau está quebrada. Um dia, afunda.

Salve-se quem puder! E nem digo "mulheres e crianças primeiro", pois ninguém respeitaria.

Abraço,

Cesar

P.S. Ainda de férias do blog, mas não resisti a escrever isso.


2 comentários:

  1. Prof
    Saudades

    Graças a Deus tutá de férias. Mesmo assim, recomendo o uso de um guarda-fezes para não conturbar o teu merecido descanso.
    Antes de perder a esportiva pense:
    O que é pior, um jetsk desgovernado ou aqueles tubarões brancos derrotados pelo "apostulu Valdumiru" naquela inusitada batalha narrada em seu épico testemunho?
    Pois é, em tudo dai graças!
    Divirta-se...se puder.
    Alberto

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  2. O trânsito de Belo Horizonte é o exemplo perfeito. Para ser hostilizado nas ruas da capital mineira basta tentar seguir as regras de trânsito. Dar preferência aos pedestres, andar dentro da velocidade permitida das vias ou respeitar a placa “pare” é garantia de faróis piscando, buzinas e até palavrões.

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