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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Interlúdio: Quem é Laurindinha?

Depois de uma postagem tensa como a que ficou abaixo, que, curiosamente, recebeu um comentário e nada mais, preciso descansar antes de cumprir o que prometi em uma conversa igualmente tensa em outro e mais afamado blog. Bem, prometi apresentar sistematicamente (e eu não sou bom nisso) a distinção entre Lei e Evangelho segundo uma linha de pensamento teológico pouco divulgada por aí, mas muito tradicional e bem consolidada em seu próprio meio. Vou fazê-lo. Mas preciso, como disse, de um intervalo. Daí, escutando uma música aqui e outra ali, acabei esbarrando com a tal Laurindinha. Tem música em que ela está otimista e feliz.; noutras, se assombra na depressão. Mas, quem é essa tal Laurindinha que tanto povoa as músicas tradicionais portuguesas? Vê, também no descanso surgem problemas. Acabei suspeitando que poderia ser parente de longe da Moreninha, que cá deste lado menos civilizado do Atlântico, frequentava várias composições espalhadas pelo sertão. Será? Dá pra fazer DNA de verso de música?

Enfim, divirta-se comigo, ouvindo música diversa das que costuma ouvir:





Bom demais, né não?
Só não é melhor porque cá nos faltam os quitutes, queijos e outras delícias de além mar!
Como eu gostava de estar lá nessa praça! (Hehehe, na terra dos gajos eles dizem assim, e não "gostaria", como fazemos aqui.)

Abraço,

Cesar


sábado, 10 de dezembro de 2011

Noite Feliz? - 3º Domingo de Advento

Neste terceiro Domingo de Advento, eu me calo. Deixo que o Fruto Sagrado tome o meu lugar e comente. A letra dessa música nos faz repensar, entre outras coisas, a pertinência de nossas palavras e atitudes. Que cada um entenda o que puder entender. Deixo já o meu abraço.


Você já esqueceu do aniversário de quem você ama?
Já esqueceu o nome de alguém que te ama?
Mas chega o fim do ano e é tudo igual,
Eu acho que vocês acham que eu sou débil-mental!
São mais de 300 dias debaixo da opressão
Medo da guerra, da bala perdida, medo do medo da solidão,
Eu vejo os shoppings lotados, ruas lotadas,
Avenidas decoradas por corações vazios...

Feliz Natal! Pra criança deixada na rua...
Noite Feliz! Praquele que não tem o que comer!
Feliz Natal! Pro pai desempregado...
Noite sem paz! Praquele que a morte veio ver!
Uma noite de paz! Uma noite...

Estava desconfortável, escuro e frio...
O cheiro dos animais invadia o curral
Onde a virgem Maria trouxe ao mundo
O Príncipe da Paz, o único capaz
De transformar o caos em harmonia,
A tempestade em calmaria,
Corações sujos como aquela estrebaria
Em um lindo shopping center decorado pro Natal...

Feliz Natal! O natal que muita gente esqueceu!
Noite Feliz! Pra quem ainda não veio pra festa!
Feliz Natal! O mundo é quem ganhou o presente!
Noite sem paz!
Pra quem esqueceu daquele que nunca te esqueceu!

Feliz Natal! Deixe-o nascer em seu coração!
Noite Feliz! O passado fica pra trás!
Feliz Natal! Você é o presente de Deus!
Noite de paz! A morte morreu de medo ao ver Jesus nascer!
Uma noite de paz! Muito mais que uma noite de paz!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ein feste Burg ist unser Gott (Tá lembrando que hoje é dia da Reforma?)



No dia 31 de outubro de 1517, o então padre Martinho Lutero afixava nas portas da igreja de Wittenberg 95 teses que combatiam os abusos nas vendas de indulgências praticadas pela Igreja Católica Romana naquele tempo. Esse ato se tornou marco do início da Reforma Protestante. De fato, ali se iniciava o processo que desencadearia muitas mudanças. Não se deve pensar que tudo estava resolvido. Claro que não. As 95 teses, embora importantes, não refletem nem um centésimo do que foi desenvolvido por Lutero. Seu pensamento se tornou mais elaborado e pungente com o tempo, inclusive devido às reações (e apatias) da Igreja Romana, a qual ele, em princípio, não pensava em deixar (na verdade ele nunca a deixou; foi expulso). Ademais, é perceptível que ele nunca pretendeu dizer que a Igreja de Roma estava errada em tudo, e que deveríamos recomeçar do zero. Não mesmo. Ele só queria livrá-la do que realmente era maléfico e que desviava a compreensão clara da Boa Nova de Salvação pela Fé. 

Precisamos de mais gente parecida com Lutero, isto é, de mais pessoas dedicadas ao estudo meticuloso das Escrituras, convictas do perdão pela fé em Jesus Cristo, corajosas e atentas às necessidades dos mais simples. Ser assim é honrar o legado do Rouxinol de Wittenberg.

Enfim, para celebrar o dia da Reforma, sugiro começar o dia escutando esse célebre hino composto por Martinho Lutero: "Castelo forte é nosso Deus". Abaixo, uma versão do mesmo em português:



Castelo forte é nosso Deus,
Defesa e boa espada;
Da angústia livra desde os céus
Nossa alma atribulada.
Investe Satã com hábil afã
E sabe lutar com força e ardil sem par;
Igual não há na terra.

Sem força para combater,
Teríamos perdido.
Por nós batalha e irá vencer
Quem Deus tem escolhido.
Quem é vencedor?
Jesus Redentor, o próprio Jeová
(1),
Pois outro Deus não há;
Triunfará na luta.

O mundo venham assaltar
Demônios mil, furiosos,
Jamais nos podem assombrar,
Seremos vitoriosos.
Do mundo o opressor,
Com todo o rigor julgado ele está;
Vencido cairá por uma só palavra.

O Verbo eterno ficará
Sabemos com certeza,
E nada nos perturbará
Com Cristo por defesa.
Se vierem roubar os bens vida e o lar -
Que tudo se vá! Proveito não lhes dá.
E céu é nossa herança.


(1) Neste trecho, para facilitar a rima, o tradutor gera uma perda literária considerável. Lutero não usa o nome Jeová ou outro parecido, mas "der Herr Zebaoth", que seria "o Senhor Sabaoth". Por que é relevante a perda? Ora, Sabaoth é a transliteração do termo hebraico que significa "exércitos". "der Herr Zebaoth" deve ser entendido como "o Senhor dos Exércitos" (em hebraico, a expressão usual é escrita com o tetragrama: YHWH TSABAOTH). O termo é escolhido pelo erudito autor por sua relação com o contexto bélico. Essa relação semântica se perde com a referência ao nome Jeová tão somente. E, assim, a riqueza da letra da música em seus detalhes também se perde. Sim, percebo a cada dia que preciso aprender alemão.


Abraço,


Cesar

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Já vem perto o Natal!

Sim, ainda não vi os tradicionais ornamentos nas vitrines. Mas comecei a ensaiar com o coral de minha Comunidade para uma cantata programada para o primeiro domingo de advento. Quando entoamos os primeiros versos de uma dessas canções, é como se nossa alma reconhecesse o tempo especial que está por chegar.

Chegam também, à nossa memória, várias canções que entoamos nos anos passados. Entre elas, todas especiais, uma me agradou de modo especial no último natal: Oh Noite Santa!. O que mais me atrai nela é a maneira completa em que apresenta o nascimento do Salvador, sua confissão de fé segura e bem definida, além da forte música e as notas altas (que trabalho deu para nós tenores!). Encontrei uma versão da mesma cantada pelo coral do King's College de Cambridge (Com órgão de tubos, que é um negócio muito legal de se ouvir. Pena que poucas igrejas no Brasil o tenham.). Apresento-a, então, como uma primeira de muitas canções de Natal que devo postar até 25 de Dezembro. 

Aproveito para adiantar o tom que procurarei seguir neste período: O Natal não é dia exato do nascimento de Jesus (eu sei e todos sabem), mas é um momento oportuníssimo para falar dele. A grande mídia tenta universalizar a data, referindo a ela como "festa de fim de ano", tentando ao máximo esconder o aniversariante. É contra isso que me levanto. É contra isso que convoco o canto.


E acrescento mais essa dessa garotinha fofa cantando super bem:


A letra em inglês, que segue abaixo, é uma tradução meio livre do original francês. O coral a canta completa. A garotinha executa uma versão um pouco diferente.

 

O Holy Night! The stars are brightly shining,
It is the night of the dear Saviour's birth.
Long lay the world in sin and error pining.
Till He appeared and the Spirit felt its worth.
A thrill of hope the weary world rejoices,
For yonder breaks a new and glorious morn.
Fall on your knees! Oh, hear the angel voices!
O night divine, the night when Christ was born;
O night, O Holy Night , O night divine!
O night, O Holy Night , O night divine!

Led by the light of faith serenely beaming,
With glowing hearts by His cradle we stand.
O'er the world a star is sweetly gleaming,
Now come the wisemen from out of the Orient land.
The King of kings lay thus lowly manger;
In all our trials born to be our friends.
He knows our need, our weakness is no stranger,
Behold your King! Before him lowly bend!
Behold your King! Before him lowly bend!

Truly He taught us to love one another,
His law is love and His gospel is peace.
Chains he shall break, for the slave is our brother.
And in his name all oppression shall cease.
Sweet hymns of joy in grateful chorus raise we,
With all our hearts we praise His holy name.
Christ is the Lord! Then ever, ever praise we,
His power and glory ever more proclaim!
His power and glory ever more proclaim!

 

domingo, 4 de setembro de 2011

Soli Deo Gloria

Se um pentecostal me disser, como muitos já disseram, que, nas igrejas históricas, não damos "glória a Deus" com emoção (e o pior é quando mencionam o caso de Herodes em Atos 12, que não tem nada a ver com isso), eu garanto que vou mostrar a ele este vídeo que prova o contrário. Aliás, farei isso para não acabar entrando em uma longa conversa no intuito de demonstrar que muitos dos que dizem "glória a Deus" em alta voz o fazem para glória própria. Enfim, melhor encerrar o papo com a música do que com argumentos que não serão ouvidos com atenção. Vamos ao vídeo! Observem a intensidade da expressão do regente. Ah, e a música é de Bach. Mais emoção que isso eu não sei como. A letra vai abaixo.


Gloria Patri, 
gloria Filio,
gloria et Spiritui Sancto!
Sicut erat in principio et nunc et semper
et in saecula saeculorum.
Amen.


(Glória ao Pai,
Glória ao Filho,
Glória ao Espírito Santo!
Como era no princípio, agora, sempre
e pelos séculos dos séculos.
Amém.)

No mais, uma boa semana a todos. E que o princípio expresso pelas palavras "Soli Deo Gloria" (Glória somente a Deus) seja uma realidade em nossas vidas, apesar das dificuldades que todos enfrentamos para nos despirmos de nossas toscas e pueris vaidades, que nos envolvem constantemente nesses joguinhos de aparências sociais (e inclusive religiosas) que tanto nos iludem.

Abraço,

Cesar


P.S.: O coral é fantástico. Só não gosto dessa pronúncia medieval/italianizada do latim, que diz printchipio e não prinkipio, como na pronúncia reconstruída. Mas isso não vem ao caso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Silly Love Songs" / o amor romântico como atitude política

Diz o Affonsinho, um músico bacana aqui de Minas, que criticaram o Paul McCartney dizendo que ele era o caretão que só escrevia canções bobinhas de amor, enquanto o John era o engajado doidão, que se enveredava pelas urgentes questões políticas. A resposta foi "Silly Love Songs", mais uma canção bobinha de amor! Demais!

Mais de três décadas depois, eu escuto essa música e me inteiro do contexto. Não deu outra! Assustei-me ao reparar que essas coisinhas bobas que chamamos de detalhes do amor romântico (cafona, brega, careta etc) já podem ser consideradas quase como marcas de um posicionamento político. Dedicar-se a uma só pessoa, amar e ser amado, ter tempo para conversar e resolver as pendências, falar baixinho mesmo achando que o outro já devia ter entendido, sorrir apesar do cansaço, fazer carinho só pra sentir a pele da pessoa amada participando da sua, ir buscar a água quando não se tem sede... Tudo isso é um posicionamento político verazmente intenso, pois, mesmo parecendo idiota, dá o tom de uma proposta para toda a sociedade. O amor (e não estou falando só do amor ao próximo em geral ou como virtude cristã, mas da caretice mesmo, daquele amor que faz alguém dizer "mô" ou "amorzinho" pra chamar o ser humano que está sentado ao lado no sofá) é a expressão de uma crença e proposta de constituição de algo maior.

Enfim, a música do Paul é melhor que minha reflexão desordenada:


You'd think that people would have had enough of silly love songs.
But I look around me and I see it isn't so.
Some people wanna fill the world with silly love songs.
And what's wrong with that?
I'd like to know, 'cause here I go again
I love you, I love you,
I love you, I love you,
I can't explain the feeling's plain to me, say can't you see?
Ah, she gave me more, she gave it all to me
Now can't you see,
What's wrong with that
I need to know, 'cause here I go again
I love you, I love you

Love doesn't come in a minute,
sometimes it doesn't come at all
I only know that when I'm in it
It isn't silly, no, it isn't silly,
love isn't silly at all.

How can I tell you about my loved one?
How can I tell you about my loved one?

How can I tell you about my loved one?
(I love you)
How can I tell you about my loved one?
(I love you)


P.S.: O Affonsinho comentou sobre isso porque fez uma música chamada Silly Love Sambas, que é muito boa também. Depois comento.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Aleluia? ou A quem você louva?

Aleluia!
Afinal, essa palavra faz parte do vocabulário do Português? Sim. Ou melhor, não. Quero dizer, depende... Ela faz parte porque é usada com frequência pelos falantes de nossa língua, inclusive fora de contextos cúlticos. Mas trata-se, na verdade, de uma expressão hebraica formada por duas palavras: halelu ya. A primeira é um imperativo de segunda pessoa do plural do verbo halal (no piel – completo a informação supondo um possível leitor hebraísta minimamente exigente), cujo sentido é louvar. A segunda palavra, ya, é um nome próprio utilizado para se designar Deus. Ou, para ser mais preciso, ya parece ser uma forma abreviada e poética do nome impronunciável de Deus, expresso graficamente pelo tetragrama YHWH. A expressão halelu ya poderia ser traduzida, então, por algo como “louvai a YHWH”, ou “louvai a Deus”, mas com a certeza de que se louvará a esse Deus específico, o único verdadeiro Deus, não a um dentre tantos outros que são apregoados por aí.

Assim, dizer aleluia não é fazer uma exclamação de louvor simplesmente, mas um convite bem definido a todos os que escutam. Ao cantar aleluia, estamos convidando os demais a se unirem a nós no canto que entoamos ao Deus Eterno, aquele que conhecemos por meio de Jesus Cristo (Quem vê a mim, vê o Pai!), pela ação do Espírito Santo em nós.

Aleluia!
Cesar
P.S.: Fique com uma das mais famosas músicas que há, executada por um dos melhores coros. Um coro com vozes masculinas somente. É extraordinário! Tenho que admitir que os anglicanos dão um banho quando se trata de canto coral.
 

sábado, 21 de maio de 2011

"Imagem e Semelhança": a queda, a graça e o comum desentendimento da fé cristã


A música é boa, como costuma ser quando vem de compositores tão capacitados: Bena Lobo, Kiko Constantino e Milton Nascimento. Chama-se "imagem e semelhança" (álbum Pietá do Milton) e manifesta uma inquietação comum entre muitos. Como tudo fica muito óbvio na letra, a apresento antes de um mínimo comentário:

Pai do Céu
Me manda alguma ajuda
A luz numa mensagem, careço de saber
Senhor, só preciso de um recado
Há coisas nesta vida
Que não posso entender

Será sua imagem e semelhança
Não, meu Pai do Céu
Não posso acreditar
Não dá

Alguém inventou essa balela
A gente não merece
De longe comparar
Falta de respeito, no começo,
Nem se acha um herdeiro
Na glória de amar
Veio seu Filho salvar a terra,
Tanto sacrifício,
Alguém mereceu,
Será?

Buda, oxalá ou Krishna, muito amado
Nos fizeram andar
Mas resta a pergunta do começa,
Tô tanto tão distante de ter sido feito,
A sua imagem, Pai.

É legítima a questão, além de formulada de uma forma completamente poética. Mas se origina de uma leitura da fé cristã que deveria ser comum somente a partir de um contexto não-cristão. Ou seja, parece-me normal que um budista ou hindu se inquiete assim a respeito do cristianismo. Já um cristão ou alguém que está inserido em meio a uma população majoritariamente cristã deveria ter uma visão ampla o suficiente de nossa proposta, a ponto de lembrar de duas palavras esquecidas: queda e graça.

Considerando-se a entrada em cena do pecado, fica mais razoável esse distanciamento moral óbvio entre nós e o Criador. Já o reconhecimento da graça exclui a expectativa de merecimento. Por isso, é extremamente importante, até mesmo imprescindível, que a fé cristã não seja divulgada apenas  em sua superficialidade, e que não sejam enfatizados somente os componentes legalistas da religião, mas que a encarnação da Palavra seja compreendida pela explanação da história de Salvação, enquanto plano movido por um amor imensurável. Tenho por certo que o cristianismo, se desprovido da noção da Graça, seria mais uma religião entre tantas outras, e, muito provavelmente, não seria das melhores.

Os cristãos que você conhece (talvez de sua igreja, inclusive) entendem o cristianismo de forma plena? Eles sabem o que é o Evangelho? Sabem o que é graça?

Um abraço,

C.

P.S.: A qualidade do vídeo não é das melhores, mas é o único que encontrei no Youtube.


 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um pouco mais de paciência



O ponto de partida para esta reflexão será a música "Paciência", do cantor e compositor pernambucano Lenini. É ele que eu convido hoje para nossa cozinha. É ele que, segundo penso, dará alguma boa instrução ao hermeneuta e ao cozinheiro.



Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára

Com essa música lenta, Lenini faz lembrar da pressa, que curiosamente esquecemos experimentar, embora nos sufoque todo o dia (às vezes também à noite). Esquecemos dela justamente por estarmos tão apressados o tempo todo. E assim seguimos, em uma vida quase mecanizada, guiados por conselhos que nem percebemos escutar, mas que nos redirecionam e condicionam como controles remotos que estão em posse de uns poucos. E o hermeneuta e o cozinheiro com isso? Bem, a resposta mais óbvia seria: é preciso tempo para cozinhar e para ler. Mas eu a completo: é preciso tempo e paciência para bem cozinhar e bem ler.

Na cozinha, a paciência nos permite esperar. Esperamos o fermento fazer seu efeito nas massas, o creme chegar à consistência exata, o assado estar no ponto etc. E não importa nossa ansiedade. Em alguns casos, de modo algum conseguiríamos reduzir prazos sem afetar os resultados. E então, em meio a vasilhas sujas, frustrados diante de um pão murcho, nos lembramos da observação do Nazareno: "Quem aí, dentre vocês, que ficando preocupado vai ser capaz de acrescentar uns poucos centímetros a seu tempo de vida?" (Mt 6:27). É preciso ter paciência.

O leitor, por sua vez, só deixa de ser mediocre quando desenvolve sua capacidade de ser paciente. Passar os olhos por um texto é diferente de ler, assim como ver é diferente de observar atentamente. Em Mediã, Moisés viveu uma das experiências mais conhecidas da Bíblia: a cena da sarça ardente. Muitos a veem como um milagre, uma demonstração de poder e sacralidade do Eterno. Mas é bem provável que se tratasse também de um teste de atenção. Se você se interessa por entender minimamente essa leitura, gaste alguns segundos com o parágrafo seguinte. Se acha desnecessário ou tem pressa demais, salte-o.

No capítulo três de Êxodo, conta-se que Moisés viu uma sarça que ardia sem se consumir e propôs a si mesmo dar a volta para ver (“darei a volta e verei”) o que acontecia ali. A atitude é observada por IHWH, que reage de forma interessante: “E viu IHWH que ele deu a volta para ver, e o chamou Deus...” (cf. Ex 3:1ss). De forma sutil, a construção parece colocar a fala de IHWH somente após a constatação da insistência de Moisés em ver, o que pode sugerir que o fenômeno se tratava de um teste, para se averiguar a capacidade de observação do futuro legislador. Ou seja, muitos poderiam ver o fenômeno e sequer observar que o fogo não consumia a planta (leva um tempo para perceber isso). Poderiam ver e pensar: "Olha só, um arbusto queimando". E desviar o olhar. (observação: Este parágrafo faz parte de um texto sério meu ainda não concluído nem publicado, por isso, fica difícil apresentar uma referência)

Se Moisés não tivesse paciência, se julgasse não ter tempo para observar melhor aquele fenômeno, o que (não) teria acontecido? Semelhantemente, nós, diante dos textos (e especialmente diantes das Escrituras), muitas vezes não gastamos o tempo necessário para perceber que há algo mais, algo extraordinário (ainda que em sua profunda simplicidade) entre as linhas que se nos apresentam. Se sem fé é impossível agradar a Deus, podemos dizer que sem paciência é impossível entender sua Palavra.

Sem paciência, sem calma, sem a devida percepção de que o tempo pode ser administrado de modo diferente, não seremos jamais capazes de cozinhar bem, nem de ler com o cuidado que a lida com as sagradas letras solicita.

Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara... tão rara

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Se é pra começar, que seja com música

Começo um blog meio atordoado e, na esperança de encontrar um ritmo, recorro à música. Interesso-me, como você deverá perceber se continuar nessa conversa, pelo canto coral. Então, escolhi uma música que ouvi hoje para inaugurar este espaço.


Tenho ouvido muitos corais da igreja anglicana. Esse da Saint Paul's Cathedral, em Londres, é extraordinário! Como é um coral masculino, os garotos mais novos se ocupam das vozes mais agudas. O resultado é de cair o queixo.

Algo sobre o salmo... É. Tenho dificuldades para com os Salmos. O primeiro problema que encontro é nas leituras públicas que deles fazemos. Acho que perdemos toda a intensidade de sua poética. Um lamento soa da mesma forma que um canto de júbilo, por vezes. No caso do 121, deixando a questão da adequação da leitura de lado, identifico-me com o cantor hebreu, que olha para lugares sagrados de outras culturas e procura sua referência na pergunta inicial, para logo depois confessar sua confiança no Eterno. Como ele, me vejo aturdido pelas muitas vozes que atravessam pelos caminhos da vida, mas, também como ele, insisto em crer e esperar.

Abraço,
C.