sábado, 24 de setembro de 2011

Hay que endurecer, pero sin perder la Escritura (Série Opiniões Avulsas)

Nestes dias, uma postagem do Marcello Comuna (no Mulheres Sábias do Blog da Rô) com o título "Um chamado ao inconformismo" provocou uma discussão bem intensa, que me fez recordar pensamentos, expectativas, leituras e inquietações de minha adolescência. Propus-me a escrever aqui um texto sobre o mesmo assunto. Deveria ser prolixo e eloquente pela importância do tema, mas o tempo me comprime e obriga a ser um pouco tosco.
A Igreja precisa preocupar-se com as questões sociais urgentes da sociedade, pois isso é necessário para sermos coerentes com o Livro que dizemos seguir. Os profetas denunciavam as fraudes de seu tempo. Nós nos calamos diante das "fraudes" que favorecem a infeliz, injusta e perversa desigualdade social. Em vez disso, continuamos batendo palmas para os ricos que se enriquecem por meio do empobrecimento de muitos, sendo injustos nos salários que pagam e sem se preocupar com a qualidade de vida daqueles que os servem nos mais diversos momentos. Não se preocupam pois estão cegos e não há quem os faça ver. Não há quem os interpele como Jesus ao jovem rico. Não há quem denuncie a estupidez desse jogo consumista que consome, antes que tudo, nossa humanidade. E muitos deles estão nas nossas igrejas.
Lembro de um conhecido, cuja empresa tentou fazer negócio com uma empresa japonesa e recebeu a seguinte resposta: "Nossa empresa não faz negócio com empresa brasileira, pois vocês exploram os funcionários. Veja o salário do porteiro de vocês. É mais de vinte vezes menor que o dos diretores. Isso não é humano." Que soco no estômago de um país que se acha cristão, no qual todos se voltam contra as palavras de Cristo. Por vezes, torcem essas palavras, as descontextualizam, pasteurizam e criam uma coisa híbrida (inclusive no sentido de que não produz nova vida) para oferecer aos novos cristãos, que não suportam críticas ao deus-dinheiro, mas que o servem em seus altares de exposição. Sim, de exposição, afinal, mais que ter, o que se busca é ter mais que o outro e fazer com que ele perceba isso.
Que porcaria! É isso que fazemos quando lemos trechos dos Evangelhos que incomodam nosso modo mediocre de vida e, numa hermenêutica mirabolante, dizemos "Jesus não critica as riquezas e os ricos, mas o amor exagerado ao dinheiro e uso errado dele. Você pode ser rico e servir a Deus". Assim, não tocamos a ferida e evitamos abalar a participação (e contribuição) dos afortunados da Igreja. (Não estou sendo legalista e condenando o dinheiro de modo definitivo e sem compaixão. É possível que alguém tenha muito dinheiro sem ser servo do dinheiro. Mas é coisa rara! Muito rara! E se não fosse servo do dinheiro, não procuraria sempre mais, e beneficiaria a todos, não somente aos seus! Não pagaria o menor preço possível e legal pelo serviço dos outros, mas seria justo e benevolente. Não escravizaria o outro por sua falta, mas compartilharia sua abundância. E por aí vai! Talvez John Wesley seja um desses raros exemplos de ricos que serviam ao Deus certo.)
No mais, falta dizer que a Igreja precisa preocupar-se com o contexto social de sua audiência também pelo fato de que a paz é necessária para que o ser humano seja de fato humano, com capacidade de ser gente para, assim, poder compreender a Mensagem do Evangelho. Duas ressalvas: 1) Estou falando de paz como suficiência de condições para a existência com dignidade, como entendo o termo Shalom na Bíblia Hebraica (e também o uso de Eirene pelos autores judeus que escreveram em grego, incluidos aí os do Novo Testamento). 2) É óbvio que antes que tudo, o Espírito é o grande responsável por toda a compreensão das coisas espirituais. 
Dito isso e feitas as ressalvas, termino com uma ilustração. O Shabat, isto é, o sábado servia também para isso, para que as pessoas tivessem um intervalo para ser gente, para conversar, aprender de Deus, divertir-se etc. Sem o sábado, o judaísmo poderia ter perdido a riqueza da Torah, pois todos estariam perdidos em seus afazeres. Sem haver Shabat Shalom ("Descanso de Paz" - e estou usando a expressão por conveniência, em um sentido totalmente amplo e nada judaizante!), isto é, sem que haja condições de se existir plenamente, também o Evangelho deixa de ser entendido e vivenciado de modo satisfatório. 
Mas é claro, essa paz é extirpada tanto pela falta das condições de suficiência quanto pelo excesso de busca por condições melhores (que as dos outros). Os que se perdem no Shopping perdem também sua inteireza humana. Os que se perdem nos seus estômagos vazios também perdem sua inteireza humana.
Já não penso como na adolescência, mas de uma coisa eu continuo a saber: O Eterno não se agrada com as injustiças sociais. A Igreja deve agir de acordo com a vontade do Eterno. Logo, a Igreja deve ser agente opositora à opressão social e ao empobrecimento (espiritual e material). 
Mas enquanto isso, na gospelândia: "Conta, irmã, quantos carros a senhora tem?" "Conta, irmão, de quantos metros é a mansão que seu deus (só pode ser o deus-dinheiro!) te deu?"
Enfim, o Nazareno e suas palavras continuariam sem fazer sucesso nos dias de hoje, nas religiões de hoje, nas igrejas de hoje...
Hay que endurecer, pero sin perder la Escritura. Essa frase me ocorreu na discussão a que me referi no início. O termo final veio mais pela sonoridade necessária para o plágio que pela reflexão. Mas ela - a frase - acaba refletindo o que entendo mesmo: podemos e devemos aproveitar algo produzido por aqueles que desmascararam esse sistema perverso que nos envolve. Mas a nossa reação deve ser, ainda que também de oposição ferrenha, diferente, pois nosso parâmetro maior é a Escritura. Ou seja, não nos alienamos, mas decidimos agir com um Guia Certo e não pela força a todo preço. 
Tá entendível?
P.S. Não digo isso por ser petista (não o sou), nem por ter gostado de algumas observações da Teologia da Libertação (De algumas, viu?), mas por querer ser minimamente coerente com minha vocação.
P.S.' É claro que a Igreja não está aqui para servir a um público específico. Os ricos também precisam da Igreja. E como precisam! Mas não de uma igreja que lhes diga meias verdades que massageiam seus gordos egos.
P.S.'' Entendo as críticas dos vermelhofóbicos quando são dirigidas aos verdadeiros erros das tentativas de realização do comunismo, mas entristece-me perceber que alguns abusam das críticas e fecham os olhos para pontos valorosos do pensamento de Marx por exemplo, ou associam tudo o que não é "direita" a certos projetos controversos do atual Governo. Nossa mente não precisa ser tão dicotômica. Conheci um ex-general do exército brasileiro do período da ditadura que agora é pastor... Um dia vou escrever sobre essa tragédia.

6 comentários:

  1. Excelente texto, Cesar. E ainda me fez lembrar o tempo em que nós discutíamos sobre o G12, hehehe.

    “Mas a nossa reação deve ser, ainda que também de oposição ferrenha, diferente, pois nosso parâmetro maior é a Escritura”

    Sua afirmação me fez lembrar justamente John Wesley, que você citou alguns parágrafos antes. O “cavaleiro de Deus”, vendo as portas dos templos anglicanos se fecharem para sua pregação, trabalhou nas praças, ruas e nas primeiras Sociedades metodistas sem, contudo, romper com a Igreja Anglicana. Por várias vezes ele reiterou sua submissão à autoridade eclesiástica da igreja oficial da Inglaterra, e ao mesmo tempo manteve-se coerente com sua pregação, sendo constante no cuidar dos pobres e no repartir do pão.

    Não sei se esse posicionamento foi puramente político, evitando assim uma reação ainda mais violenta por parte da Igreja Anglicana, mas prefiro acreditar que foi a forma que Wesley encontrou de fazer exatamente o que você propôs.

    Claro que o contexto da igreja evangélica atual é outro. Mas ainda creio ser possível reagir de forma coerente com o Evangelho. A denúncia é importante e, apesar de que em certos casos tem sido feita em um tom exageradamente inflamado, tem surtido algum efeito. Tanto que os blogueiros apologéticos já são uma pedra no sapato do Malafaia. Ela deve ser feita de forma direta, franca e respeitosa. O próprio Malafaia dá o exemplo de como denunciar de forma totalmente carnal.

    Amar, praticar e difundir o Evangelho legítimo (Cristocêntrico) é também uma forma de dissipar as trevas do falso evangelho antropocêntrico através da Luz. É justamente este cristianismo antropocêntrico ( ou egocêntrico? ) que torna o cristão insensível ao próximo. É o evangelho impregnado pelo ideário capitalista do culto ao indivíduo e ao sucesso pessoal.

    Se a denúncia é importante para refrear o crescimento do evangelho carnal, é o ensino da Palavra que faz crescer o Reino de Deus e traz o legítimo avivamento para a nossa nação. Quando se gera o caráter de Cristo no homem, e o Filho se torna o centro de nossa pregação e fé, invariavelmente o crente é desperto para os problemas sociais.

    Abração!!

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  2. Olá Cesar!

    Que texto regozijante, conseguiste transcrever muito do que eu penso, porém, minha ignorância não me permite.

    Ficaria feliz se vc me indicasse alguns livros que me ajudasse solidificar melhor meus argumentos e entendimentos a respeito desse tema.

    Muito feliz de te encontrar na blogoesfera.

    Abraços fraternos camarada!

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  3. Nossa que texto hein??? Adorei Cesar. Muito bom, sei que o evangelho tem este poder Cesar, não precisamos de ajuda marxista para que não haja injustiça social. Seus texto parece muito com os texto de Marcello acho que vocês vão trocar bastante figurinhas he he he. Paz querido!

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  4. Marcos,
    Acho que é por aí mesmo. Só tenho certo receio, pois nos permeia um pernicioso aprisionamento da Palavra, que se faz por meio de um embrolho de argumentos e interpretações que se canonizam e tomam lugar de autoridade. Mas isso também pode ser abalado pela própria emergência da Palavra.
    Abraço!

    Marcello,
    Obrigado pelas palavras que me motivam muito e por juntar-se aos frequentadores desta humilde cantina. A comida nem sempre é das melhores, mas tudo é feito com algum capricho. Quanto aos livros... Bem, eu nunca estudei o tema sistematicamente. Então, não tenho uma bibliografia na cabeça. O texto foi mais embasado na minha experiência e na experiência de leitura e releitura das Escrituras. Mas é claro que algo contribui para a aplicação atual do Texto Sagrado. Acho que ler Marx faz bem (a Rô já junta a lenha e o Casal 20 traz a querosene... posso até ver... hehehe), ainda que não tenhamos que concordar com tudo e todos os encaminhamentos tomados. Agora, no âmbito cristão, uma coisa que me fez pensar muito há alguns anos foi o livro "Lutero e Libertação: Releitura em Perspectiva Latino-Americana" do professor Walter Altmann (Editora Sinodal). Esse compensa muito adquirir.
    Um abraço!

    Rô,
    Que bom que gostou! hehehe... passei pela censura do AI-5!!!! Ah é, o Marcello puxou assento numa das mesas aqui da cantina e espero que fique por longo tempo. E que a ala mais da direita não se incomode... Temos tempero para todos os gostos.
    Um abraço!

    Cesar

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  5. Cesar,

    "Com a fé e o auxílio do Espírito Santo, percebe-se a Palavra de Deus que se enletra na Bíblia e, por isso, o efeito será especial, alcançando o espírito" ( do seu post do dia 21/09 )

    Seu post sobre a Bíblia pode ser também uma resposta a esta sua preocupação com o aprisionamento da Palavra.

    Deus te abençoe sempre!

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  6. A ala da direita não faz oposição Cesar, só a da esquerda rss.
    Abraços religiosamente afetuosos!

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