sábado, 9 de julho de 2011

Você sabe o que é crucificação? Eu achava que sabia!

Não, o intento da pergunta não é nada teológico. Não se discute agora o significado salvívico do sacrifício de Cristo, nem seu alcance. A questão é bem mais prática: Você sabe como se crucificavam as pessoas nos tempos de Jesus? Eu achava que sabia. Os filmes, as pinturas, os dicionários e até comentários bíblicos são tão convincentes que passamos a enxergar nos textos do Novo Testamento uma cena bem definida de como teria sido a crucificação de Cristo. No entanto, hoje, em um grupo de trabalho do Congresso Internacional da SBL (Society of Biblical Literature) dedicada à linguagem e linguística do grego helenístico, o prof. Dr. Gunnar Samuelsson, da Universidade de Gothemburg, demonstrou (a meu ver, de modo convincente) que não há, nas fontes antigas, incluindo-se aí o N.T., uma descrição clara do que viria a ser a tal crucificação, de como seriam os procedimentos. Na verdade, a própria forma da cruz não é definida no Novo Testamento ou em qualquer outras das fontes antigas como sendo especificamente como as nossas cruzes atuais. Sêneca se refere a diferentes formas de "cruzes". Outro detalhe interessante é que uma pessoa podia ser "crucificada" já morta, conforme Heródoto, por exemplo.
Enfim, os textos antigos não lançam muita luz sobre o que aconteceu com Jesus naquele dia. E o relato dos Evangelhos, se lidos sem as cenas de filmes na cabeça, só detalham o seguinte, nas palavras de Samuelsson: 1) Jesus foi suspenso vivo para ser morto. 2) Jesus ou alguém que caminhava por lá foi obrigado a carregar uma staurós [o professor usa a palavra grega para lembrar que não sabemos ao certo o que é a tal cruz] até o lugar da execução. 3) Que Jesus foi suspenso em uma staurós aparentemente pela perfuração de suas mãos.
Bem, foi uma apresentação de meia hora, mas muito didática e convincente. Segundo ele, um livro que reproduz sua tese de doutorado, justamente sobre esse assunto, sairá em setembro próximo. Mas sai pela editora Mohr Siebeck. Isso é ruim, apesar da alta qualidade gráfica e editorial (e talvez por isso mesmo), todos os livros deles são muito caros. O último que tive que comprar custou mais de cem euros e tinha menos de duzentas páginas...
Para completar: Samuelsson quis fazer essa apresentação para esclarecer o objetivo e os resultados de sua pesquisa. Segundo ele, alguns grupos da mídia o entenderam mal e divulgaram que ele estava tentando provar que a crucificação de Jesus não aconteceu. Nada disso. Ele só quis provar que nós não sabemos como era uma crucificação. Não toca nem de perto em assuntos vitais para nossa fé.

Um abraço,
Cesar
P.S. Curioso notar que aquela pretensa erudição dos que explicam que se fazia assim e não assado com as mãos dos crucificados, que no caso de Jesus houve diferenças etc provavelmente provém do vazio e não produz nada mais que aparência de conhecimento, aparência sem substância. Curioso também notar que filmes como o afamado Paixão, que procuram ser muito realistas, podem estar imitando elocubrações fantasiosas e não realidades de fato. Curioso notar que a arte medieval forjou nossa recepção do texto bíblico. E há muitas curiosidades mais, se você parar pra pensar. Ponto para os iconoclastas?

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