sábado, 28 de maio de 2011

Minha leitura do Pai Nosso hoje

Rio no Parque das Cachoeiras, em Ipatinga - MG

Trata-se de uma tradução minha, acrescida de um comentário breve e simples, quase digitado conforme o fluxo de meus pensamentos (pensamentos ruminados durante vários dias). A espontaneidade, que tem lugar na produção das orações, teve lugar também nesta interpretação inquieta, mas sincera. Espero que seja proveitosa para algo.

Nosso Pai, tu que estás no céu,

Clamo ao Eterno como pai, não somente meu, mas nosso, porque minha fé é vivida comunitariamente. Ele é chamado pai por cuidar de nós de perto, mas, logo, digo que está no céu, isto é, em um “lugar” que minha especulação não alcança. Nos dias atuais, talvez o céu (enquanto elemento físico) já não seja visto como algo tão distante. Por isso, talvez eu dissesse: Nosso Pai, tu que estás muito além dos limites conhecidos do Universo, alcançados pela intelecção e invenção humana.

Que o teu nome seja santificado,

Deus é santo. Mas o seu nome, isto é, o modo pelo qual nos referimos a Ele com nossa voz muitas vezes não é tratado com a devida reverência, como algo separado, sagrado, santo. Hoje, essa parte da oração parece fazer ainda mais sentido, uma vez que vivemos em meio a pessoas que fazem atrocidades usando o nome de Deus. Inclusive, cristãos inventam modas nas igrejas e, em vez de assumirem a responsabilidade por suas bizarrices, defendem seus devaneios com frases forjadas como estas: “Este projeto nasceu no coração de Deus” ou “O Senhor falou que eu devia mostrar isso para vocês...”. Falta o entendimento da sacralidade do Nome. Falta temor diante Dele. Por isso, o pedido é urgente!

Que venha a nós o teu reino,

Pois estes reinos que aqui experimentamos já provaram que nada têm a oferecer, sobretudo em um país corrupto como o nosso. Os reinos terrenos nos desiludem, por isso queremos que venha o Verdadeiro Reino do Senhor. Que venha pela transformação de nossas vidas individuais. E que venha com o derradeiro desfecho escatológico também.

E que da mesma forma como a tua vontade é feita no céu, seja feita também sobre a terra,

Porque as vontades dos homens estão corrompidas pelo egoísmo. Sem a tua santa vontade imperando, nós nos degladiamos por nada e não chegamos a lugar algum!

Dá-nos hoje o nosso pão diário,

Porque dependemos do suficiente para a vida inclusive para que possamos esperar Nele. Não pedimos luxo, riquezas sem fim, ou algo para ostentar, mas somente o necessário. Em algum momento, porém, alguns cristãos se viram contagiados pela febre das riquezas. Eles desprezaram a oração que Jesus ensinou e se convenceram de outras, segundo suas próprias vontades. Agora, clamam por uma prosperidade desmedida. Não percebem que as riquezas se tornaram seus deuses, enquanto o único Deus verdadeiro passou a ser tratado como meio, instrumento de sua cobiça.

E perdoa as nossas dívidas, como também nós perdoamos os nossos devedores.

Eu tinha uma dívida por meu pecado, mas ela foi completamente paga por Jesus. Nele, Deus perdoa tudo que eu fiz de mal. Agora, cabe a mim fazer o mesmo. É uma condição.

E não me conduzas à provação, mas livra-me do que é perverso.

Lembro que Deus conduziu Israel ao exílio, uma situação limite, uma situação de prova. O que peço é que Ele se apiede de mim e não me leve a situações como aquela, que testam minha fidelidade, porque sou fraco e reconheço minhas limitações. Por isso, peço também que faça o contrário de “me conduzir à prova”, o que é “livrar-me da maldade”. Livra-me, Senhor, eu peço. Nestes dias, o perverso é encontrado em cada esquina de minha cidade. Saio de casa e não sei se terei segurança até meu regresso. Minha fortaleza só pode ser o Senhor, pois a segurança que há nesta terra é falha.
[Sei que os teólogos preferem a tradução “Não nos deixes cair em tentação”, mas, embora agrade à teologia, parece-me distante do que encontro no texto mesmo. O verbo eisféro é “levar para”, “conduzir”. Essa tradução “apassivada” (“deixar cair”) é estranha, acho. Tudo bem, Deus não tenta a ninguém. Por isso, leio o substantivo peirasmós em um sentido menos moral. Se alguém se interessar, conversamos sobre isso.]

É isso. Mais que isso, só conversando.

Um abraço fraterno,

Cesar

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