sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sobre a importância de se conhecer a roça

Cavalos com sede, entre SJDR e Tiradentes, Minas Gerais

Na primeira vez em que me ocorreu o que exponho nesta nota, eu não estava lendo a Bíblia, mas Os trabalhos e os dias, de Hesíodo. Um amigo (que estuda esse poema a fundo) e eu nos encontramos com alguma frequência para ler uns versos e conversar. Pois bem, depois de quebrar a cabeça na tentativa de encontrar uma tradução mais adequada para alguns dos trechos, observei que nossa dificuldade nem sempre era linguística apenas, mas de experiência. Explico-me: O contexto desse poema grego é eminentemente rural e, por isso, algumas práticas e fenômenos são completamente estranhos para alguém que só está habituado à vida em grande cidade. Claro, não ignoro que a vida nas roças brasileiras não é igual àquela que levavam os gregos há 2800 anos. Mas a terra é semelhante, bem como a experiência de observar o clima, a lida com os animais e seus ciclos, a observação das plantas etc. Tendo percebido isso com Hesíodo, compreendi que algumas das dificuldades de compreensão que tenho com alguns textos da Bíblia podem advir de problema similar.

Também na Bíblia, o contexto rural é amplamente perceptível. Nos primeiros livros, encontramos os personagens principais como criadores de cabras. Depois, um pequeno pastor é ungido rei. E mais adiante, um profeta se diz boiadeiro. Certamente, todos esses que permeiam os textos deixaram rastros rurais de suas experiências nas páginas da Escritura Sagrada. Não é muito diferente no Novo Testamento. Em algumas cartas encontramos uma ou outra referência à vida no campo. Mas é nos discursos de Jesus que esse universo está fortemente presente. Termos como "semeador", "ovelhas", "sementes" e "árvores" são frequentemente mencionados e utilizados na composição de suas parábolas, metáforas e comparações. O nosso distanciamento desse ambiente pode tornar ainda mais difícil a apreensão dos significados pretendidos. Quando se trata de uma metáfora, o problema se avoluma, pois além de precisar compreender o referente concreto que é significado pelas palavras, temos que tentar alcançar algum entendimento sobre o que esse referente evocava aos ouvintes primeiros e, ademais, como isso era mobilizado no imaginário, com vistas à apreensão do sentido do discurso.


Como exemplo, menciono um dos muitos versos em que Jesus se refere à sua relação com os seguidores como a de um pastor com suas ovelhas. Alguns judeus lhe pediam que dissesse com clareza se era o Ungido. Então:


"Respondeu-lhes Jesus: 'Eu disse a vocês e vocês não creem. As obras que eu faço em nome de meu Pai, elas testemunham a respeito de mim. Mas vocês não creem, porque vocês não são das minhas ovelhas. As minhas ovelhas escutam a minha voz. E eu as conheço e elas me seguem!'" João 10:25-27


Não digo que o texto nos seja incompreensível, mas que poderia ser entendido com mais profundidade. Com uma mais completa iniciação nos assuntos campestres, podemos ter acesso à percepção de diferentes alternativas de leitura, que, segundo penso, estariam disponíveis à reflexão dos primeiros receptores. Diga-me se faz algum sentido o que penso depois de ler o seguinte caso verídico que me foi contado:


Um pastor (pastor de igreja) visitava a fazenda de um membro de sua comunidade. A noite caía enquanto os dois caminhavam por uma estrada perto da casa. O pastor, então, ao ver as ovelhas soltas no pasto, estranhou e perguntou ao homem:
- Já está tarde. O senhor não vai recolher o rebanho? Estou atrapalhando seu trabalho?
- Não, não preocupa não. Hoje é um pouco diferente. Vamos esperar aqui. Preste atenção no que vai acontecer.

Os dois se assentaram. Depois de uns quinze minutos, uma das ovelhas se separou do grupo e se colocou perto de uma árvore a uns bons metros de distância. Logo, ela pariu uma pequena e frágil ovelhinha.
- Escuta. Disse o roceiro.
A ovelha mãe baliu (balir é o que fazem as ovelhas) alto e a bebê respondeu. Em seguida, a explicação:
- Pastor, as ovelhas fazem isso quando vão parir. Elas se separam para que as crias possam ouvir bem e especificamente o seu balido, sem confundi-lo com os das outras ovelhas. E de agora em diante, a pequena ovelhinha vai reconhecer sua mãe pelo seu som, mesmo que elas estejam separadas em meio a umas cinquenta ovelhas.


Pois bem, esse pastor da história contou o relato a meu pastor e, agora, eu o conto a você, ao mesmo tempo em que o registro por escrito. Com essa observação do roceiro (sobre a relação das ovelhas com o reconhecimento pela voz) em mente, a resposta de Jesus àqueles que lhe perguntavam se ele era de fato o Ungido faz ainda mais sentido. Eles não são do rebanho de Jesus, não são suas crias, e, por isso, não reconhecem mesmo sua voz, diferentemente de suas ovelhas. Estas, não precisam perguntar-lhe nada assim, de modo rude, nem duvidar vagando sem rumo. Elas simplesmente reconhecem sua voz e o seguem. (Exagerei na leitura?) Além disso, abre-se também a possibilidade de se aperceber que Jesus pode, por meio dessa fala, indicar que ele, como pastor, tinha se feito ovelha entre as ovelhas, para que essas pudessem reconhecer sua voz (Essa leitura já é de minha [ir]responsabilidade). Ou seja, um discurso simples, da roça, pode condensar uma considerável profundidade teológica. O Pastor Eterno tem sua voz reconhecida entre as ovelhas, os seres humanos, justamente por se irmanar com elas.


Por essa e outras tantas, começo a pensar que os hermeneutas deveriam fazer cursos de atualização em hotéis fazenda... Claro, essas informações podem ser encontradas em livros, em alguns canais de televisão, ou na internet, alguém poderá dizer. Mas parece-me que uma experiência mais ampla, de percepção, de vivência no meio rural pode ser mais produtiva, pois, "em campo", as informações não são selecionadas e dosadas conforme o gosto do fornecedor, mas conforme o fluxo da vida, assim como no contexto de produção dos discursos antigos aqui mencionados.


E tendo eu acabado com as palavras, que Milton e Chico nos entretenham:


4 comentários:

  1. Prezamado Cesar,
    A paz

    Tenho a mania de seguir blogs inteligentes.
    Somos três, agora,nos rastros do Saboroso Saber
    Prossiga, como preconiza, sem rinhas entre nós, blogueiros.
    Abençoe-te Deus, abundantemente.
    Alberto

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  2. Estimado Alberto Couto Filho,

    É uma honra tê-lo por aqui. O senhor é muito bem vindo.

    Igualmente te abençoe o bom Deus.

    Abraço fraterno,

    Cesar

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  3. Interessante! Gostei do seu site. Muito mais profundo e embasado que o meu.

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  4. Que bom que você gostou, Érica! Ah, nada disso! Volte a escrever, por favor.
    Abraço fraterno,
    Cesar

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