domingo, 19 de junho de 2011

A "água vivente/corrente" no batismo segundo a Didakhé

 
Imagine se um texto referido por Pais da Igreja Antiga tivesse se perdido no tempo. Imagine que lêssemos as referências dos Pais e ficássemos pensando: o que será que estaria escrito mesmo nesse texo? Agora, imagine o que aconteceria se esse texto fosse redescoberto. Pois foi o que aconteceu com a Didakhé, texto redescoberto no final do século XIX. De início, foi um reboliço só. Todo mundo começou a falar que o texto poderia trazer ensinos em primeira mão dos próprios apóstolos. Com o tempo, começaram a esmiuçar o escrito e a achar várias interpolações, marcas de diferentes redatores etc. Hoje, entende-se, em geral, que grande parte do texto foi redigida em um período por volta do início do século II (120 d.C., por aí). É sem dúvida um texto muito antigo e um importantíssimo testemunho das práticas cristãs no primeiro período pós-apostólico.

O trecho da Didakhé que traduzo e apresento abaixo orienta a respeito do batismo. Não é meu objetivo discutir fórmulas batismais, maneiras de se usar o elemento água, idade do batizado, nada disso. Se eu entrasse nessas questões, logo teria que identificar minha afiliação religiosa, o que não pretendo fazer. Os comentaristas, contudo, estejam à vontade para dizer o que quiserem. Eu quero somente observar que a expressão "água vivente" parece significar simplesmente algo como "água corrente". São as mesmas palavras que aparecem no trecho de João 7:37-39 (veja comentário em postagem do dia 10/06/2011), onde são tradicionalmente traduzidas por "água viva".

E a respeito do batismo, assim batizai: No nome do Pai, do Filho e do Espítiro Santo em água vivente (e)n uÀdati zw½nti). E caso não tenhas água vivente (uÀdwr zw½n), batiza em outra água. Se não podes em água fria, [batiza] em morna. Caso não tenhas ambas, verte água na cabeça três vezes, no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E antes do batismo, jejue com antecedência aquele que batiza, assim como o que é batizado, e se alguns outros puderem. Mas mandas o batizado jejuar antes um ou dois dias.

E então? Aqui, pelo menos, a expressão parece indicar água corrente, não é? Ou você acha que os cristãos tinham um tanque de água viva especialmente preparada para o batismo?

Abraço,

Cesar

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