sexta-feira, 10 de junho de 2011

"rios de água vivente" em João 7:37-39: uma interpretação

água entre as pedras, Ipatinga - MG

A Tradução

No último dia da grande festa, Jesus ficou de pé e falou bem alto dizendo: Se alguém tiver sede, venha até mim e beba. Aquele que crê em mim, conforme disse a Escritura, a partir do seu interior fluirão rios de águas viventes. E isso ele disse a respeito do Espírito, o qual os que creram nele estavam para receber. Pois ainda não estava o Espírito, porque Jesus ainda nãoo tinha sido glorificado.

Questões de Crítica Textual (se não gostar disso, pule para a interpretação diretamente)

No verso 37, "venha a mim". Manuscritos importantes omitem "prós me", que traduzo por "a mim". Outros tantos, também muito antigos, o apresentam. No fim das contas, a expressão só serve como marcação de ênfase, já que a direção do movimento está implícita no contexto.

No verso 39, "os que creram". Optei por seguir a proposta da edição dos Aland, que apresenta um particípio aoristo (pistéysantes). Muitos manuscritos antigos, entre eles o Sinaítico, apresenta um particípio presente: pistéyontes. Uns poucos indicam um particípio futuro: pistéysontes. Bem, o aoristo não precisa ser traduzido por um pretérito necessariamente. Só o faço porque assim se harmoniza melhor com a expressão da qual este particípio é sujeito, "estavam para receber", que apresenta um verbo no imperfeito. Não obstante, o texto não sugere nenhuma exclusividade temporal.

No verso 39, "o Espírito". Aqui também segui os Aland. A discordância entre os manuscritos é notável. Papiros importantes (66 corrigido e 75) e o códice sinaítico, entre outros, só apresentam pneûma, "Espírito". Outros, como o papiro 66 (versão primeira), acrescentam hagion, "santo". Outros têm pneûma dedoménon, que daria: "pois o Espírito ainda não estava dado". Há, ainda, pneûma hágion dedoménon: a mesma frase de antes, mas com o "santo". Por fim, o uncial D apresenta quase sozinho tò pneûma hágion ep'autoîs, "o Espírito Santo sobre eles". Os Aland dão com certo que o texto mais próximo do original, nesse caso, é o mais curto: Espírito. Parece fazer sentido. É mais provável que as divergências dos outros manuscritos sejam fruto de tentativas de diferentes copistas de deixar o texto mais claro. Em geral, os críticos entendem que uma lição mais confusa parece ser a mais próxima do original, pois os copistas não tentam deixar o texto menos legível, mas o contrário. Seja como for, entende-se bem da mesma forma, quer com o texto mais implícito ou mais explícito.

Não há questão de crítica textual neste trecho que afete minha interpretação.

Interpretação pontual

Observo de início que o motivo desta nota é a impressão que tenho de que costumamos reproduzir um vocabulário hermético em nossas igrejas e composições musicais, sem compreender realmente o significado das expressões que usamos. Claro, como no conto "A roupa nova do Imperador", todo mundo diz que entende, para não parecer menos "espiritual". A bem da verdade, acho que a fala de Jesus é muito espiritual, mas talvez menos abstrata do que muitos pensam. O óbvio, às vezes, fica esquecido em meio aos delírios e o rei pode estar nu.

Primeiramente, observo que seria possível traduzir hýdatos dzôntos por algo mais simples como "de água corrente" (cf. Jr 2:13, em que a expressão hebraica (maim haiim) se contrapõe a uma cisterna (água parada); ver também como a expressão aparece na didakhé - se não conhece o texto, não se preocupe, que em breve apresentarei uma tradução do trecho). Mas não vou me deter nisso, inclusive porque a ideia de vida convém para a reflexão, pelo que prefiro mantê-la na tradução (tendo em mente que a imagem é descritiva também).  Considerando o comentário do evangelista após a fala de Jesus (verso 39), precisamos entender que "rios de águas viventes" se refere a algo relacionado com o Espírito Santo. E, considerando, a própria fala de Jesus, precisamos entender que a expressão "rios de água vivente" remete a algo que está antecipado na "Escritura" (he graphé). Uma interpretação que não procure esse duplo olhar não seria considerável, por desrespeitar informações do próprio texto.
Preciso, pois, responder a duas questões: 1) O que um rio parecido poderia indicar na Escritura disponível no tempo de Jesus (penso na Bíblia Hebraica, a Tanakh, como um todo, e não somente na Torah)? 2) O que o Espírito Santo faz que tenha a ver com essa imagem de rio refletida na Escritura?

Vamos, como diria o Jack, por partes (que expressão horrível para um assunto tão sublime!). Óbvio que não vou fazer um levantamento completo sobre "rios" na Escritura. Seleciono apenas dois trechos que me ajudam na presente reflexão. São eles:

Provérbios 18:4  Águas profundas são as palavras da boca de um indivíduo. Torrente que jorra é fonte de sabedoria.

Salmo 1:2-3 [bem-aventurado o homem que...] ... que cujo deleite está na instrução de YHWH, e na instrução Dele pensa dia e noite. Ele será como árvore plantada às margens de canais de água...

Pois bem, o que quero que se perceba é que a água corrente está relacionada com a palavra, com a instrução que se faz pela fala. É até curioso o fato de que o verbo quer traduzi por "jorra" no provérbio (nove') também pode significar algo como "declarar". Ou seja, o uso metafórico da imagem do rio correndo ou da fonte jorrando para indicar a fala está muito óbvio no meio dos hebreus, ao ponto de ser anotado na própria linguagem cotidiana. Antes que eu viage demais, vamos à segunda questão que propus. No caso do Salmo, o que medita na Palavra de Deus é apresentado como uma árvore que está junto a um rio. A Palavra obviamente é essa água que lhe dá vida.

O que o Espírito faz que tenha a ver com tudo isso? Vamos direto aos textos:

João 14:16 O consolador, o Espírito Santo, o qual o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos lembrará tudo o que eu vos disse.

João 16:8 E quando tiver vindo, ele convencerá o mundo com respeito ao pecado, à justiça e ao juízo.

Esses dois textos, que estão no Evangelho de João como o que agora discuto, já deixam claro uma grande função do Espírito: o ensino. Ele ensinaria os discípulos de modo que pudessem escrever os Evangelhos, e também ensinaria tudo que precisariam falar, bem como convenceria (O verbo é elénkho, muito usado na retórica - inclusive no Górgias de Platão - como "refutar", "convencer". Lembra o contexto de um debate. Curioso.) o mundo. Junto a esses textos, quero que se lembre da grande função do Espírito no livro de Atos, desde aquele dia de Pentecostes. O ensino já está marcado no primeiro milagre das línguas (cada um entende no seu idioma, o que derruba uma grande barreira do aprendizado) e continua no fato de que o Espírito enche os discípulos de modo que seus discursos sejam efetivos. Ele os ensina o que dizer.
Se você acompanhou a reflexão com atenção, eu nem precisaria apresentar a conclusão que tenho. Mas, para o caso de algum desavisado, aí vai: 

Proponho que se entenda os "rios de água vivente/corrente" a que Jesus se refere como as palavras dos cristãos, seus discursos de anúncio do Evangelho, motivados pelo Espírito. Esse rio-palavra transborda de dentro do indivíduo e, como torrentes de água límpida, fica disponível para multidões. O rio que saiu da boca de Pedro mudou a vida de três mil pessoas. E as enchentes continuaram. E espero que continuem. Mas, infelizmente, frequentemente, não queremos jorrar desses rios, da Palavra de Anúncio do Evangelho, mas somente de palavras nossas, muitas vezes carregadas de rancor e legalismo barato, ou sentimentalismo vazio. Os rios de água vivente não são uma imaginação ou um delírio místico, muito menos uma boa desculpa para uma melosa música de "adoração", são o próprio Evangelho, que é poder de Deus para salvação do que crê.

É isso. Mais que isso eu não consigo escrever em menos de duas horas. Ah, isso é só um blog mesmo, né?

Abraço,

Cesar

P.S.: Não sei transliterar o hebraico com precisão. Faço apenas uma transliteração de acordo com o som de minha leitura.
P.S.': Devo escrever mais sobre água, tanto no que se refere à Bíblia e à tradição cristã, quanto no que se refere à culinária, música etc. Tudo de acordo com o tempo que tiver disponível. As tarefas se avolumam novamente.
P.S.'': Certamente, minha conclusão pode ser incrementada pela observação de outros textos e pela consideração da ação do Espírito de modo mais completo. Tentarei continuar em postagem futura. De momento, se você puder contribuir, dicordando inclusive, para a interpretação aqui apresentada, não se acanhe. Isso foi só um esboço e não tenho muita vergonha das minhas ignorâncias. Escreve que eu aguento.

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